sábado, 21 de abril de 2018

MPF RECOMENDA QUE IBAMA INDEFIRA LICENÇA PARA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NA FOZ DO AMAZONAS

MPF recomenda que Ibama indefira licença para exploração de petróleo na foz do Amazonas


ABr
O Ministério Público Federal (MPF) no Amapá expediu recomendação ontem (18) para que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) indefira licença para exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, solicitada pela empresa Total E&P do Brasil, por considerar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) feito na região insuficiente.
Uma equipe de cientistas a bordo do navio Esperanza, da organização não governamental Greenpeace, documentou a existência de um banco de rodolitos – parte dos chamados Corais da Amazônia – na área da possível exploração de petróleo, a 120 quilômetros (km) da costa norte do Brasil. Segundo a ONG, a prova da existência de uma formação recifal na área invalida o EIA realizado anteriormente pela Total, que afirmava que a formação mais próxima de recifes estaria a oito quilômetros de distância de um dos blocos de exploração.
Pesquisadores e Greenpeace divulgam primeiras fotos de corais da Amazônia
Em abril de 2016, pesquisadores encontraram enorme conjunto de recifes na foz do rio Amazonas, – Divulgação/Greenpeace
De acordo com nota divulgada pelo MPF, a liberação de atividades petrolíferas, sem estudo adequado, viola compromissos internacionais firmados pelo Brasil, a exemplo da Agenda 21 – programa de ações para o desenvolvimento sustentável resultante da ECO 92. Na recomendação, o MPF alerta ainda que liberar o empreendimento pode resultar na destruição em larga escala do meio ambiente, configurando ecocídio – crime contra a humanidade sujeito à jurisdição do Tribunal Penal Internacional.
Segundo o MPF, a única forma de garantir que se evite danos ambientais na área é negando o licenciamento ambiental, utilizando-se dos princípios da prevenção e da precaução, em que o poder público deve agir antecipadamente diante do risco.
“Desde 2016, o MPF apura a possível ocorrência de irregularidades no EIA apresentado pela empresa. No ano passado, na primeira recomendação ao Ibama sobre o assunto, o MPF orientou o órgão a rever o processo de licenciamento para reavaliar os impactos da atividade petrolífera na região. O Ibama, então, determinou à Total que fossem refeitos documentos anteriormente apresentados pela empresa e readequados os estudos necessários ao licenciamento”, informou o MPF no Amapá. O Ibama disse que o estudo apresentado pela empresa está em análise pela sua equipe técnica da Diretoria de Licenciamento Ambiental.
Na avaliação do MPF, no entanto, os esclarecimentos prestados pela empresa “não foram capazes de demonstrar a segurança necessária para a exploração de petróleo na área pretendida. A própria Total declarou que eventual vazamento poderia afetar o ambiente marinho, físico e biótico, de países vizinhos ao Brasil, o que, para o MPF, poderia causar problema diplomático”.
O MPF concedeu dez dias de prazo para o Ibama informar o acatamento ou não da recomendação e, caso não atenda, o órgão disse que serão adotadas medidas judiciais cabíveis.
Agência Brasil solicitou posicionamento da Total, mas não teve resposta até a conclusão da reportagem.

O AQUECIMENTO GLOBAL ESTÁ TRANSFORMANDO A GRANDE BARREIRA DE CORAIS

O aquecimento global está transformando a Grande Barreira de Corais


ARC CENTRE OF EXCELLENCE IN CORAL REEF STUDIES*

Um novo estudo, publicado on-line na revista Nature, mostra que os corais no norte da Grande Barreira de Corais sofreram uma catastrófica mortalidade após a extensa onda de calor marinha de 2016.

Uma colônia de acroporídeos severamente branqueada entre as colônias de Porites minimamente branqueadas. Crédito: ARC CENTRE OF EXCELLENCE IN CORAL REEF STUDIES / Gergely Torda
Uma colônia de acroporídeos severamente branqueada entre as colônias de Porites minimamente branqueadas. Crédito: ARC CENTRE OF EXCELLENCE IN CORAL REEF STUDIES / Gergely Torda
Os cientistas mapearam o padrão geográfico de exposição ao calor dos satélites e mediram a sobrevivência dos corais ao longo dos 2.300 km de extensão da Grande Barreira de Corais após a extrema onda de calor marítimo de 2016.
A quantidade de morte dos corais, que eles mediram, estava intimamente ligada à quantidade de branqueamento e nível de exposição ao calor, com o terço norte da Grande Barreira de Corais sendo o mais severamente afetado. O estudo constatou que 29% dos 3.863 recifes que compõem o maior sistema de recifes do mundo perderam dois terços ou mais de seus corais, transformando a capacidade desses recifes de sustentar o pleno funcionamento ecológico.
“A morte de corais causou mudanças radicais na mistura de espécies de corais em centenas de recifes individuais, onde comunidades de recifes maduras e diversificadas estão sendo transformadas em sistemas mais degradados, com apenas algumas espécies resistentes”, disse o co-autor Prof Andrew Baird do Coral CoE da James Cook University .
“Como parte de um evento global de calor e branqueamento de coral que abrange 2014-2017, a Grande Barreira de Corais sofreu estresse de calor e branqueamento novamente em 2017, desta vez afetando a região central da Grande Barreira de Corais”, disse o co-autor Dr. Mark Eakin da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA .
“Estamos agora em um ponto em que perdemos quase metade dos corais em habitats de águas rasas, nos dois terços do norte da Grande Barreira de Corais, devido ao branqueamento consecutivo em dois anos consecutivos”, disse. Prof Sean Connolly de Coral CoE na James Cook University .
“Mas isso ainda deixa um bilhão ou mais de corais vivos e, em média, eles são mais resistentes que os que morreram. Precisamos nos concentrar com urgência na proteção do copo que ainda está meio cheio, ajudando esses sobreviventes a se recuperarem ”, disse o professor Hughes.
Os cientistas dizem que essas descobertas reforçam a necessidade de avaliar o risco de um colapso em larga escala dos ecossistemas dos recifes, especialmente se a ação global sobre a mudança climática não limitar o aquecimento a 1,5 ± 2°C acima dos níveis pré-industriais.
O estudo é único porque testa a estrutura emergente da Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) , que procura classificar os ecossistemas vulneráveis.
“A Grande Barreira de Corais está certamente ameaçada pela mudança climática, mas não está condenada se lidarmos muito rapidamente com as emissões de gases do efeito estufa. Nosso estudo mostra que os recifes de coral já estão mudando radicalmente em resposta a ondas de calor sem precedentes ”, disse o professor Hughes.
Os pesquisadores alertam que o fracasso em conter a mudança climática, fazendo com que as temperaturas globais subam muito acima de 2°C, irá alterar radicalmente os ecossistemas dos recifes tropicais e prejudicar os benefícios que elas proporcionam a centenas de milhões de pessoas, principalmente em países pobres e em rápido desenvolvimento.
Referência:
Global warming transforms coral reef assemblages
Terry P. Hughes, James T. Kerry, Andrew H. Baird, Sean R. Connolly, Andreas Dietzel, C. Mark Eakin, Scott F. Heron, Andrew S. Hoey, Mia O. Hoogenboom, Gang Liu, Michael J. McWilliam, Rachel J. Pears, Morgan S. Pratchett, William J. Skirving, Jessica S. Stella & Gergely Torda
Nature (2018)
doi:10.1038/s41586-018-0041-2
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0041-2

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/04/2018

BRASIL SUBMERGENTE ?

Brasil submergente vive o pior docênio (2011-2022) dos 200 anos da Independência, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

participação do PIB brasileiro no PIB mundial: 1822-2022
[EcoDebate] Por quase 180 anos, desde a Independência (em 1822), o Brasil foi uma nação emergente no cenário internacional e apresentou grande crescimento populacional (passou de 4,7 milhões de habitantes em 1822, para 121 milhões em 1980 e mais de 200 milhões atualmente), assim como grande crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A participação do PIB brasileiro no PIB mundial subiu de 0,43% em 1822 para 3,2% em 1980, mas pode ficar em 1,9% do PIB mundial, em 2022, como mostra o gráfico acima.
A partir da Independência, com raros momentos de retrocessos, o Brasil passou a crescer mais do que a média da economia mundial. Porém, foi no período compreendido entre 1930 e 1980 que o país deu um salto no crescimento demoeconômico, pois a população cresceu 3,3 vezes (de 37 milhões de habitantes em 1930 para 121 milhões em 1980) e o PIB cresceu 18,2 vezes. No mesmo período, a população mundial cresceu 2,2 vezes (de 2,1 bilhões de habitantes em 1930 para 4,6 bilhões em 1980) e o PIB mundial cresceu 5,4 vezes. Nos cinquenta anos em questão, a taxa média de crescimento anual do PIB foi de 6% no Brasil e de 3,4% no mundo. Crescendo em ritmo mais acelerado, o Brasil se tornou uma das dez maiores economia do mundo.
Os chamados “30 anos dourados” ocorreram logo depois da Segunda Guerra Mundial, entre 1950 e 1980, quando a população brasileira cresceu 2,8% ao ano, a economia cresceu 7% ao ano e a renda per capita cresceu 4,2% ao ano. Porém a situação se inverteu nas últimas quatro décadas e o PIB brasileiro tem crescido menos do que a média mundial, desde 1981.
Considerando as últimas quatro décadas, até os 200 anos da Independência, o Brasil deve crescer menos do que a média mundial. Entre 1981 e 2022 o país deve apresentar um crescimento de 2,4 vezes no PIB (2,1% ao ano) e o mundo deve apresentar um crescimento de 4,1 vezes no PIB (3,4% ao ano). Portanto, a economia brasileira perdeu ritmo em relação à média global (que, neste período é liderada pela China e Índia). O povo brasileiro está mais pobre em termos relativos e o Brasil virou uma economia submergente.
O gráfico abaixo mostra o crescimento anual do PIB (barras azuis) e os docênios, média móvel de doze anos (linha vermelha). Nota-se que, na maior parte dos 200 anos, os docênios ficavam acima de 4% ao ano e chegaram a atingir 9% aa, quando se considera o período 1967-1980. Mas a partir de 1981 a economia brasileira sofre um grande revés e passa a crescer, consistentemente, abaixo de 4% aa. A chamada primeira década perdida (anos 1980) rebaixou o ritmo de crescimento do PIB brasileiro. Houve uma pequena recuperação nos anos 1990 e uma recuperação um pouco melhor na primeira década do século XXI (mas muito abaixo dos números da década de 1970).
A partir da recessão, que teve início em 2014 e se aprofundou no biênio 2015 e 2016, os docênios passaram a apresentar ritmo abaixo de 2% aa e devem vivenciar, pela primeira vez na história brasileira, um crescimento em torno de 1% aa. O docênio 2011-2022 deve apresentar um crescimento de 1,2% aa. Desta forma, a primeira década perdida (1981-90) fez o ritmo da economia brasileira cair de 9% aa para 3% ao ano e a atual década perdida (2011-20) vai fazer a economia brasileira passar de algo pouco acima de 3% aa para cerca de 1,2% ao ano.
taxas de crescimento do PIB
Evidentemente, a economia brasileira está “na UTI” e não terá nada a comemorar nos 200 anos da Independência. Pelos dados apresentados nos gráficos acima, nota-se que o Brasil que já representou 3,2% do PIB mundial pode chegar a representar 1,9% da economia global em 2022 (pela metodologia de Angus Maddison). Em termos relativos, é como se o Brasil tivesse reduzido de tamanho quase pela metade. Se a economia brasileira tivesse mantido a mesma proporção de produção de bens e serviços globais, a renda per capita brasileira poderia estar próxima da renda per capita de Portugal e o Brasil poderia ser considerado um país de renda alta.
Mas parece que o Brasil vai ficar preso à “Armadilha da renda média”, pois está perdendo a oportunidade de aproveitar o bônus demográfico e terá grande dificuldade para dar um salto no desenvolvimento depois que o índice de envelhecimento for superior a 100 (quando a proporção de idosos for superior à proporção de crianças e jovens de 0 a 15 anos).
Em vez de progredir em termos relativos, o Brasil está regredindo e empobrecendo antes de envelhecer. Depois do envelhecimento populacional, será muito difícil (talvez até impossível) dar um salto no desenvolvimento e se tornar uma nação de alto padrão de vida social e ambiental. Parece que o país está jogando fora uma oportunidade histórica e única. O futuro brasileiro, de “ordem e progresso”, está seriamente ameaçado.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/04/2018

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A CONTRIBUIÇÃO DO DECRESCIMENTO POPULACIONAL PARA O MEIO AMBIENTE NO SÉCULO XXI.

A contribuição do decrescimento populacional para o meio ambiente no século XXI.

"O aumento da população funciona como um fermento para o aumento do consumo. A obsessão pelo crescimento demoeconômico contínuo fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta. Dados de 2013 mostram que a Pegada Ecológica global está 68% acima da biocapacidade. E o déficit ecológico continua aumentando. Em breve consumiremos 2 planetas".
O alerta é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 16-04-2018.

Eis o artigo.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

fecundidade da população mundial caiu bastante nos 50 anos compreendidos entre 1965 e 2015. A taxa de fecundidade total (TFT) estava em torno de 5 filhos por mulher entre 1950 e 1965 e caiu para 2,5 filhos por mulher no quinquênio 2010-15. Houve uma diminuição de 2,5 filhos na TFT em meio século. Foi a maior redução já ocorrida na história da humanidade e representa um dos maiores e mais significativos fenômenos sociais de mudança de comportamento de massa já ocorridos na sociedade.
A autolimitação do tamanho da prole ocorreu de forma racional e em meio ao aumento do bem-estar médio global. Isto significa que as famílias optaram por investir na qualidade dos filhos e não na quantidade de novos membros da família. A redução da TFT não ocorreu em função da escassez de recursos, ao contrário, foram os casais com maiores níveis de educação e renda e com maior acesso à informação que lideraram a transição da fecundidade nos diversos países.
Porém, mesmo com toda a expressiva queda da TFT, a população mundial cresceu de 2,5 bilhões de habitantes em 1950 para cerca de 7,5 bilhões de habitantes em 2015. Se a taxa de fecundidade se mantiver em torno de 2,5 filhos por mulher até 2100 a população mundial poderá duplicar entre 2015 e 2100 e chegar a um número próximo de 15 bilhões de habitantes no final do século XXI.
(Fonte: EcoDebate)
Divisão de População da ONU faz várias projeções para as próximas décadas. Na projeção média a taxa de fecundidade passaria dos atuais 2,5 filhos por mulher para 2 filhos por mulher em 2100. Na projeção baixa, a TFT passaria de 2,5 filhos para 1,5 filhos por mulher em 2100. Ou seja, na hipótese da projeção média, a TFT seria reduzida em meio (0,5) filho até 2100. Na hipótese de projeção baixa, a TFT seria reduzida em um (1) filho no espaço de 85 anos, conforme mostra o gráfico acima.
Esta queda projetada pode parecer pequena para o período 2015-2100 (diante dos 2,5 filhos reduzidos entre 1965-2015), mas teria um efeito impactante sobre o volume total da população e no número de nascimentos.
O gráfico abaixo mostra que o número de nascimentos do mundo em 1950 estava, aproximadamente, em torno de 100 milhões de bebês por ano e subiu para cerca de 140 milhões de bebês no quinquênio 2010-15. Se a TFT seguir a trajetória média, conforme hipótese da Divisão de População da ONU, o número de nascimentos anuais no mundo ficará em torno de 140 milhões nas próximas décadas e atingirá 131,2 milhões no quinquênio 2095-00. Se a TFT seguir a trajetória baixa, o número de nascimentos anuais no mundo cairá progressivamente e atingirá 59 milhões no quinquênio 2095-00.
O número total de nascimentos entre 2015 e 2100, na projeção média, seria de 11,8 bilhões e na projeção baixa de 7,7 bilhões. Isto significa que se, nos 85 anos entre 2015 e 2100, a TFT cair de 2,5 para 2 filhos por mulher vão nascer 11,8 bilhões de crianças e se a TFT cair de 2,5 para 1,5 filho por mulher o número de nascimentos se reduziria para 7,7 bilhões. Uma diferença de 4,1 bilhões de crianças.
(Fonte: EcoDebate)
Estes dados mostram o impacto da queda de meio filho sobre o volume da populaçãototal, indicando que uma aceleração do ritmo da transição da fecundidade poderia reduzir imediatamente o número de nascimentos. Por exemplo, na hipótese média de projeção o número de nascimentos seria de 141 milhões no quinquênio 2015-20 e de 142,9 milhões no quinquênio 2045-50, enquanto na hipótese baixa de projeção os números seriam de 126,6 milhões e 100 milhões, respectivamente. Assim, se a TFT cair no ritmo estimado da projeção baixa haverá um bilhão de nascimentos a menos até 2050. Portanto, mesmo com a inércia demográfica, a redução seria significativa e poderia contribuir para diminuir a pressão sobre o meio ambiente.
O gráfico abaixo mostra a evolução da população mundial de 1950 a 2015 e os cenários de projeção médio e baixo. Na hipótese média, a população mundial passaria dos atuais 7,5 bilhões de habitantes para 11,2 bilhões de habitantes em 2100. Na hipótese baixa, a população mundial ficaria com 7,3 bilhões de pessoas no final do século XXI. Portanto, se houver uma queda de um filho na TFT até 2100, em relação aos 2,5 filhos do quinquênio 2010-15, o mundo pode ter uma população em 2100 menor do que a de 2015. Seriam menos 4 bilhões de pessoas em relação à projeção média da Divisão de População da ONU. Ao invés de crescimento demográfico, teríamos decrescimento demográfico.
(Fonte: EcoDebate)
Os dados acima mostram que a demografia não é destino. Mais de 90% da população global de 2100 vai nascer nos próximos 85 anos (de 2015 ao final do século). A população mundial cresceu nos últimos milênios seguindo a máxima do livro do Genesis: “Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!”. Porém, agora é possível evitar o crescimento exponencial ininterrupto.
aumento da população alimenta (por meio da oferta de trabalho e a demanda por consumo) o aumento da economia. O superconsumo só se sustenta porque existem pessoas consumindo. A parcela da população mundial com consumo muito elevado está em torno de 20%. Mas existe uma grande classe média (em torno de 40% da população mundial) que quer mimetizar o consumo dos ricos. E os 40% da população muito pobres também querem (e merecem) aumentar o consumo de alimentos, educação, saúde, lazer, etc.
aumento da população funciona como um fermento para o aumento do consumo. A obsessão pelo crescimento demoeconômico contínuo fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta. Dados de 2013 mostram que a Pegada Ecológica globalestá 68% acima da biocapacidade. E o déficit ecológico continua aumentando. Em breve consumiremos 2 planetas.
Evidentemente, a redução do consumo é a tarefa mais urgente para reduzir a pegada ecológica. Mesmo com a rápida queda da taxa de fecundidade a população mundial vai crescer nos próximos anos. Porém, seguindo a trajetória baixa da projeção da ONUa população mundial não ultrapassaria 9 bilhões de habitantes até 2050 e diminuiria rapidamente na segunda metade do século XXI, podendo chegar em 2100 com um volume populacional menor do que o atual.
Seria um risco para todas as formas de vida do Planeta aumentar a população mundial em 4 bilhões de habitantes e aumentar a economia e a exploração da natureza. A humanidade, ao longo da história, já prejudicou bastante a saúde dos ecossistemas e vai ter que enfrentar grandes desafios nas próximas décadas, tais como: aquecimento global e ondas letais de caloraumento do nível do mar e naufrágio das áreas litorâneas, aumento dos furacõesacidificação dos oceanos, erosão dos solos, poluição das águas, crescimento das mortes por poluição do ar, redução da biodiversidade, insegurança alimentar, etc.
Menos gente significará menos sofrimento humano e não humano. Com a novidade da redução demoeconômica ficaria mais viável a recomposição dos ecossistemas e arecuperação da biodiversidade. O colapso ambiental poderá ser evitado se houver um esforço conjunto dos diversos países do mundo para colocar a humanidade em um espaço seguro, onde a redução das atividades antrópicas possa coexistir com a convivência harmoniosa com a natureza. A lição sabemos de cor, só nos resta colocá-la em prática: Sem ECOlogia saudável não há demografia viável ou ECOnomiasustentável.

ASSASSINATOS NO CAMPO BATEM NOVO RECORDE.

Análise da CPT revela que assassinatos no campo batem novo recorde e atingem maior número desde 2003


A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou os dados de assassinatos em conflitos no campo no Brasil em 2017 – o maior número desde o ano de 2003. A CPT também denuncia ataques hackers que sofreu no último ano, provavelmente dentro do processo de criminalização contra as organizações sociais que tem se intensificado, e que acabou impossibilitando a conclusão e o lançamento nessa data de seu relatório anual, o “Conflitos no Campo Brasil”.
Mesmo com o atraso em sua publicação, a CPT torna públicos hoje os dados de assassinatos em conflitos no campo ocorridos no ano de 2017. Novamente esse tipo de violência bateu recorde, e atingiu o maior número desde 2003, com70 assassinatos (confira aqui a tabela). Um aumento de 15% em relação ao número de 2016. Dentre essas mortes,destacamos 4 massacres ocorridos nos estados da Bahia, Mato Grosso, Pará e Rondônia. Destacamos, ainda, a suspeita de ter ocorrido mais um massacre, de indígenas isolados, conhecidos como “índios flecheiros”, do Vale do Javari, no Amazonas, entre julho e agosto de 2017. Seriam, pelas denúncias, mais de 10 vítimas. Contudo, já que o Ministério Público Federal no Amazonas e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), não chegaram a um consenso, e diante das poucas informações a que a CPT teve acesso, por se tratar de povos isolados, o caso não foi inserido na listagem por ora apresentada (Confira aqui a política e regras de uso dos dados da CPT).   
A CPT ressalta, todavia, que, além dos dados de assassinatos que constam nesta relação, há muitos outros que acontecem na imensidão deste país e que só a dor das famílias é que os registram. “A publicação da CPT é apenas uma amostra dos conflitos no Brasil”, dizia Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás (GO) e um dos fundadores da Pastoral.
assassinatos no campo: 2003-2017
Os assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra, de indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015. O estado do Pará lidera o ranking de 2017 com 21 pessoas assassinadas, sendo 10 no Massacre de Pau D’Arco; seguido pelo estado de Rondônia, com 17, e pela Bahia, com 10 assassinatos.
ranking de assassinatos no campo em 2017
Dos 70 assassinatos em 2017, 28 ocorreram em massacres, o que corresponde a 40% do total. Em agosto de 2017, a CPT lançou uma página especial na internet (https://cptnacional.org.br/mnc/index.php) sobre os massacres no campo registrados de 1985 a 2017. Foram 46 massacres com 220 vítimas ao longo desses 32 anos. Na página é possível consultar o histórico e imagens dos casos. O estado do Pará também lidera esse ranking, com 26 massacres ao longo desses anos, que vitimaram 125 pessoas.
Assassinatos e Julgamentos
A CPT registra os dados de conflitos no campo de modo sistemático desde 1985. Entre os anos de 1985 e 2017, a CPT registrou 1.438 casos de conflitos no campo em que ocorreram assassinatos, com 1.904 vítimas. Desse total de casos,apenas 113 foram julgados, o que corresponde a 8% dos casos, em que 31 mandantes dos assassinatos e 94 executores foram condenados. Isso mostra como a impunidade ainda é um dos pilares mantenedores da violência no campo.
Nesses 32 anos, a região Norte contabiliza 658 casos com 970 vítimas. O Pará é o estado que lidera na região e no resto do país, com 466 casos e 702 vítimasMaranhão vem em segundo lugar com 168 vítimas em 157 casos. E o estado deRondônia em terceiro, com 147 pessoas assassinadas em 102 casos (Confira aqui a tabela).
Ataques hackers atrapalham conclusão do relatório anual da CPT
A partir do segundo semestre de 2017, a Secretaria Nacional da CPT, situada em Goiânia (GO), sofreu seguidos ataqueshackers, orquestrados e direcionados a setores estratégicos, que forçaram a limitação do funcionamento de seus servidores na tentativa de manter a segurança do sistema, o que acabou comprometendo o desempenho das tarefas diárias da Pastoral. O Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, responsável pela catalogação e compilação dos dados de conflitos no campo divulgados pela entidade, foi prejudicado, atrasando o fechamento do relatório anual da CPT, o “Conflitos no Campo Brasil”, e impossibilitando o seu lançamento na data costumeira, a semana do 17 de abril, Dia Internacional de Luta Camponesa, em memória aos trabalhadores rurais sem-terra assassinados na Curva do S, em Eldorado dos Carajás, Pará, em 1996.
Esses ataques podem, também, fazer parte do processo de criminalização empreendido contra organizações e movimentos sociais de luta. O caso foi denunciado às instâncias policiais competentes e segue sob investigação. De qualquer forma, a CPT julga de extrema importância denunciar, ainda que de forma incompleta, algumas das diversas formas de violência exercidas contra os povos do campo em 2017 e chamar a atenção para os dados alarmantes que agora analisamos. Em breve será divulgado, enfim, o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2017”, completo. A CPT aproveita para reafirmar seu compromisso com as causas do povo pobre do campo, e que não conseguirão nos calar!
Fonte: Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

É O PIOR MOMENTO DESDE A CRISE DOS MÍSSEIS

"É o pior momento desde a crise dos mísseis"diz especialista em Rússia e Estados Unidos.


A tensão atual entre EUA e Rússia é a pior desde que os dois países ficaram à beira de uma guerra nuclear na Crise dos Mísseis de 1962, diz o professor Ivan Kurilla, especialista na relação entre americanos e russos da Universidade Europeia, em São Petersburgo, na Rússia. Em sua opinião, a situação atual é mais imprevisível que o período da Guerra Fria, posterior ao conflito de 1962.
A entrevista é de Cláudia Trevisan, publicada por O Estado de S. Paulo, 12-04-2018.
Para ele, o cenário doméstico de ambos os lados aumenta a possibilidade de agravamento do conflito, ainda que não acredite em uma guerra aberta. “Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível.” Putin também age com um olho no seu público interno. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado.

Eis a entrevista.

O presidente Trump disse que as relações entre EUA e Rússia estão no pior patamar desde a Guerra Fria. O sr. concorda?
Nós não temos os blocos militares e a competição ideológica de antes. Na Guerra Fria, o mundo era dividido quase igualmente entre o bloco ocidental e o bloco oriental. E havia duas grandes máquinas militares. Agora, temos apenas a Rússia, que tenta desafiar todo o mundo, o que não parece colocar o perigo estratégico real de uma guerra mundial. A situação é mais semelhante à dos anos 20. Depois da Revolução Comunista de 1917, houve um período de quase dez anos em que a Rússia soviética não foi reconhecida diplomaticamente pelo Ocidente. Foi um período em que os governos ocidentais não tinham políticas para lidar com esse adversário novo, ambicioso, que havia quebrado todas as regras.
O que estamos vendo é mais imprevisível que a Guerra Fria?
Sim e essa é a pior característica da situação atual. Com certeza é mais imprevisível do que o período posterior à Crise dos Mísseis, em 1962. Depois dela, os dois países tentaram conter a agressividade mútua. A situação atual é como o “jogo da galinha” (no qual ambos os jogadores avançam na direção do outro e o que desvia perde; se nenhum desviar, os dois perdem). É muito ruim para as relações internacionais. A situação atual não é tão ruim quanto a Crise dos Mísseis, mas é a pior desde então.

Qual é o risco de confronto entre EUA e Rússia na Síria?
O risco existe. Eu espero, como todo mundo, que não haja confronto militar real. A pior coisa que pode acontecer é o disparo de mísseis pelos Estados Unidos na Síria e sua interceptação pela Rússia. Mas não espero uma guerra aberta. Eu cresci no fim da Guerra Fria e não creio que uma guerra entre Rússia e Estados Unidos seja possível. Um grande confronto entre os dois países será nuclear e todo mundo cresceu com o temor da guerra nuclear. Ninguém quer isso.
Qual o impacto da personalidade de Trump sobre a imprevisibilidade atual?
Quando o presidente Trump está sob pressão das elites políticas americanas, isso o torna mais imprevisível. Parte da elite política dos EUA continua a usar a chamada interferência da Rússia nas eleições e as conexões de Trump com a Rússia para limitar sua habilidade de definir sua própria política externa. Não me refiro apenas à imprevisibilidade de Trump como pessoa, mas ao fato de que seu embate contra grande parte das elites americanas torna a política externa dos EUA muito mais imprevisível. Do lado russo, também há fatores domésticos, especialmente desde a recente reeleição do presidente Putin. Nos dois casos, questões domésticas jogam um papel muito mais importante do que o que está acontecendo na Síria. Claro que a Síria cria o pretexto para um conflito, mas a escalada foi provocada não pela Síria, mas foi provocada pela construção da imagem do inimigo, tanto nos EUA quanto na Rússia.
Se os EUA atacarem a Síria, a Rússia vai responder?
Não tenho como prever. Mas Putin repetiu, nas entrevistas que concedeu depois de sua reeleição, que ele não gosta de fazer concessões. A ideia é que qualquer concessão leva à derrota. Por isso, é difícil esperar que ele faça concessões, a menos que haja uma maneira de permitir que ele saia da situação com dignidade.
Qual o grau de preocupação dos russos com essa crise?
As pessoas estão muito preocupadas, a julgar pelo que eu vejo nas mídias sociais. Hoje é o segundo dia seguido em que a possibilidade de um confronto entre a Rússia e os EUA é o principal tópico na internet. De 80% a 90% dos comentários no Facebook russo e em outras mídias falam sobre o assunto. É algo que todo mundo está discutindo. Ninguém quer uma guerra.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos