sábado, 3 de dezembro de 2016

ASSUSTADO COM DONALD TRUMP ? VOCÊ NÃO SABE A METADE.


The Atlantic
"Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos".
O comentário é de George Monbiot, jornalista britânico, em artigo publicado por The Guardian, 30-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Eis o artigo.
Sim, as atividades políticas de Donald Trump são incoerentes. Mas aqueles que o cercam sabem bem o que querem, e a falta de clareza dele aumenta o poder destas pessoas. Para entender o que iremos ter pela frente, precisamos entender quem são estas pessoas. Eu as conheço muito bem, pois passei os últimos 15 anos combatendo cada uma delas.
Durante esse período, observei como as empresas de tabaco, carvão, petróleo, produtos químicos e biotecnologia investiram bilhões de dólares em uma máquina internacional de desinformação composta por “think tanks”, blogueiros e grupos de cidadãos com identidades falsificadas. A finalidade deles é retratar os interesses dos bilionários como sendo os interesses das pessoas comuns, travar guerras contra os sindicatos e derrubar as tentativas de regulamentar os negócios e taxar os muito ricos. Agora as pessoas que ajudaram a moldar esta máquina estão moldando o próprio governo.
A primeira vez que me deparei com esta máquina foi ao escrever sobre as mudanças climáticas. A fúria e o ódio dirigidos aos cientistas do clima e ativistas ambientais pareciam incompreensíveis até que percebi que eram falsos: o ódio havia sido pago. Os blogueiros e institutos que promoviam essa fúria eram financiados por empresas petrolíferas e carvoeiras.
Entre aqueles com quem entrei em conflito está Myron Ebell, do Competitive Enterprise Institute – CEI. Este instituto considera-se um think tank. Para mim, no entanto, ele é um grupo lobista corporativo. Não é nada transparente quanto aos financiamentos que recebe. Mas hoje já sabemos que ele recebeu US$ 2 milhões da ExxonMobil, mais de US$ 4 milhões de um grupo chamado de Donors Trust (que representa várias corporações e bilionários), US$ 800 mil de grupos criados pelos magnatas Charles e David Koch, e somas substanciais de empresas dos ramos carvoeiro, tabagista e farmacêutico.
Durante anos, Ebell e o CEI atacaram as iniciativas que visavam limitar as alterações climáticas por meio de lobby, ações judiciais e campanhas. Um anúncio divulgado pelo Instituto tinha a frase: “Dióxido de carbono: uns chamam de poluição. Nós chamamos de vida”.
O grupo tem procurado eliminar o financiamento para a educação ambiental, fazendo lobby contra o Endangered Species Act (lei contra espécies ameaçadas), atormentando os cientistas climáticos e fazendo campanhas em favor da mineração com remoção dos picos de montanhas por parte de empresas carvoeiras. Em 2004, Ebell enviou um memorando a um dos funcionários de George W. Bush pedindo que o chefe da Agência de Proteção Ambiental fosse demitido. Onde está Ebell neste momento? Ah! Ele está liderando a equipe de transição de Trump na Agência de Proteção Ambiental.
Charles e David Koch – que durante anos financiaram políticas pró-corporativas extremas – podem não ter sido as pessoas mais animadas com a candidatura de Trump, mas os seus homens estiveram presentes em toda a campanha. Até junho, o gerente da campanha de Trump era Corey Lewandowski, que como os outros membros da equipe de Trump veio de um grupo chamado Americans for Prosperity – AFP.
Todos estes movimentos pretendem ser uma campanha de base, mas na verdade são financiados pelos irmãos Koch. O AFP criou a primeira página do Tea Party no Facebook e organizou os seus primeiros eventos. Com um orçamento de centenas de milhões de dólares, fez campanhas ferozes contra temas que coincidem com os interesses comerciais dos irmãos Koch nos setores de petróleo, gás, minerais, madeireiro e de produtos químicos.
Em Michigan, o grupo ajudou aprovar a “lei de direito ao trabalho”, buscando aquilo que o diretor local da AFP chama de “tirar os sindicatos da vida boa e pô-los a trabalhar”. O grupo fez campanha em nível nacional contra as mudanças climáticas. Injetou centenas de milhões de dólares para derrubar políticos que não compram suas ideias e substituí-los por outros mais dispostos.
Eu poderia ocupar todo este artigo com os nomes de funcionários de Donald Trump que vêm de grupos semelhantes: por exemplo, Doug Domenech (da Fundação de Política Pública do Texas, financiado pelos irmãos Koch, pela Exxon e pelo Donors Trust, entre outros); Barry Bennett (cuja “Aliança para o Futuro da América”, hoje chamada “One Nation”, se recusou a revelar quem são os seus doadores); e Thomas Pyle (presidente da Aliança Americana de Energia, financiado pela Exxon e outros). Tudo isso é para não precisar falarmos dos próprios interesses conflitivos de Trump. Trump prometeu “drenar o pântano” dos lobistas e das bancadas corporativas que atuam em Washington. Mas parece que os únicos pântanos que ele irá drenar são os pântanos reais, já que sua equipe se lança em guerra contra o mundo natural.
De modo compreensível, tem havido muita cobertura em torno dos racistas e supremacistas brancos empoderados com a vitória do republicano. Mas, horríveis como são, eles encontram-se na periferia das políticas que a equipe de governo irá desenvolver. É quase reconfortante, porém, concentrar-se neles, pois, pelo menos, sabemos quem são e o que representam. Por outro lado, penetrar na máquina de desinformação corporativa é adentrar um mundo de espelhos. Passe um tempo suficiente tentando compreender este mundo, e o vórtice de hiporrealidade infligirá um dano grave em seu estado de espírito.
Não devemos pensar que outras partes do mundo estão imunes. Os think tanks corporativos e grupos de base falsos, como os citados aqui, estão hoje em toda parte. A notícia falsa sobre a qual devemos nos preocupar não são aquelas inventadas por adolescentes envolvendo o nome de Hillary Clinton, de que ela estaria vendendo armas ao Estado Islâmico. Devemos nos preocupar, isto sim, com a prática constante de informar números negativos em torno dos sindicatos, impostos e regulamentações aventados por grupos que não vão revelar os seus próprios interesses.
Quanto menos transparentes são, mais tempo eles dispõem no horário nobre. A organização Transparify realiza um levantamento anual sobre os think tanks. A pesquisa deste ano revela que, na Inglaterra, apenas quatro think tanks (Adam Smith Institute, Centre for Policy Studies, Institute of Economic Affairs e Policy Exchange) “ainda consideram aceitável pegar dinheiro de mãos ocultas atrás de portas fechadas”. E estes são os que estão em toda a imprensa.
Quando o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos) aparece na BBC para falar contra a regulamentação do tabaco, o que acontece frequentemente, eu pergunto: Não deveríamos ser informados de que o grupo é financiado por empresas do ramo desde 1963? Há um padrão semelhante nos EUA: os grupos que mais se impõem tendem a ser os mais opacos.
Como de costume, a esquerda e o centro (eu incluso) estão se debatendo sobre onde erraram. Há muitas respostas, mas uma delas é a de que simplesmente não gastamos além da conta. Com alguns bilhões de dólares empregues na persuasão, teríamos conseguido tudo o que desejamos. Ativistas genuínos, trabalhando em seu tempo livre, não têm condições de se igualar a uma rede profissional composta por milhares de pessoas bem remuneradas e sem escrúpulos.
Só podemos confrontar o poder a partir do momento em que sabemos o que ele é. A nossa primeira tarefa nessa luta é entender o que temos pela frente. Somente assim poderemos descobrir o que fazer.

PADRÃO DE CONSUMO INSUSTENTÁVEL.

Padrão De Consumo Atual É Insustentável Para População De 7 Bilhões

Em palestra da série USP Talks, pesquisadores alertam para a necessidade de mudar o sistema socioeconômico e nosso modo de vida para reverter mudanças climáticas
Por Diego C. Smirne, do Jornal / Agência USP
Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O sistema socioeconômico construído e adotado pela humanidade desde a Primeira Revolução Industrial, em 1750, possui um padrão de consumo insustentável para um mundo com 7 bilhões de pessoas como o atual, e mais ainda para a população que se estima que habitará a Terra daqui a poucas décadas, de 9 a 10 bilhões de indivíduos.
A afirmação é do professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF) da USP, que, junto do professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, participou do USP Talks na quarta-feira, 30 de novembro, para tratar do tema Mudanças Climáticas: a Terra daqui a 100 anos.
“Quando a China, Índia e África, que juntas têm hoje mais de 3 bilhões de habitantes, resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema”, defende Artaxo, que é referência mundial no estudo da física aplicada a problemas ambientais.
O professor afirma não ver maior desafio para a ciência e a humanidade do que as mudanças climáticas, pois elas colocam em xeque nossa estrutura socioeconômica e nosso modo de viver. “Ainda tem gente que diz não acreditar nas mudanças climáticas, como o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas ele representa grandes interesses, assim como qualquer presidente. Não é uma questão de acreditar ou não, não é religião. As mudanças estão aí.”
Quando a China, Índia e África resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema
O professor ainda chama a atenção para um dilema ético causado pelas mudanças climáticas: “Temos o direito de causar a extinção em massa de inúmeras espécies que dividem o planeta conosco?”. De acordo com Artaxo, 40 bilhões de toneladas de gases estufa são lançadas na atmosfera todos os anos, uma taxa que ainda está em ascensão. Isso já gerou um aumento de 1ºC na temperatura média do planeta – no Brasil, o aumento foi de 1,5º a 1,8º, uma mudança crítica para ecossistemas como a Amazônia.
A floresta amazônica é um importante recurso para adiar os efeitos das mudanças climáticas, por ser o que se chama de uma bomba biológica, isto é, um grande sistema de retenção de carbono. Isso se dá porque o tronco das árvores necessita de enorme quantidade desse elemento para se formar. Porém, o professor Artaxo alerta que essa capacidade de armazenamento está se esgotando, pois as árvores não crescem para sempre, e árvores novas estão sendo sistematicamente desmatadas. “O Brasil desmatou, no último ano, 8 mil quilômetros quadrados de floresta primária na Amazônia. É uma quantidade enorme.”

Oceanos

O professor Frederico Brandini explica que, assim como a Amazônia, os oceanos também caracterizam uma bomba biológica, em virtude da absorção do carbono pelas algas unicelulares que os habitam. Além disso, eles são uma bomba de solubilidade, pois o dióxido de carbono (CO2) é muito solúvel em água, especialmente nos mares gelados próximos aos polos, que têm maior capacidade de dissolução da molécula e, por serem mais densos, levam-na ao fundo do oceano.
Porém, a capacidade da bomba biológica dos oceanos também está se esgotando, pois as algas concentram-se numa faixa limitada deles, aquela que recebe luz. Segundo o professor, apenas os 100 metros superficiais (cerca de 2% do oceano) são iluminados pela radiação solar.
Ao mesmo tempo a bomba de solubilidade é sobrecarregada pela desmedida emissão de carbono das atividades humanas, e, quanto mais carbono no fundo dos oceanos, mais ácida fica a água. “Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral”, afirma Brandini, estudioso da área de Oceanografia Biológica.
Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral
Esse esgotamento da capacidade da retenção de carbono das bombas biológicas é preocupante. De acordo com Brandini, 30% do gás carbônico absorvido fica retido nas florestas, outros 30% nos oceanos e o restante é o que ele chama de “carbono perdido”. “Não se sabe para onde vai essa porcentagem, é possível que parte dela fique presa às nossas roupas, por exemplo. A questão é que os outros 60% vão deixar de ser fixados pelas árvores e pelos oceanos, então teremos ainda mais gases estufa na atmosfera, o que vai agravar o aquecimento global.”
Há ainda outros problemas da ação humana para o equilíbrio dos oceanos. Brandini afirma que algumas substâncias presentes em cosméticos e remédios não são metabolizadas por nosso organismo e, uma vez excretadas, chegam aos oceanos por meio do esgoto. “Essas substâncias ficam por décadas circulando na água, há peixes e outros seres vivos espalhados pelos mares do mundo todo contaminados por elas”, explica. Além disso, o professor ressalta os impactos da poluição sonora e luminosa causada pelo homem. “O oceano não é um universo visual, a maior parte dele é escura. Os seres marinhos se comunicam principalmente pelo som ou por mecanismos químicos, e estamos desequilibrando isso também.”

Há esperança?

Com ressalvas, os professores se mostram otimistas em relação à possibilidade de superarmos as mudanças climáticas. Artaxo afirma que iniciativas como o Acordo de Paris, aprovado por 195 países em 2015, embora bem intencionadas, são insuficientes. O acordo prevê uma redução de 32% da emissão de gases estufa com o objetivo de limitar a no máximo 2ºC o aumento da temperatura média do planeta.
“Essa redução está longe de acontecer e, mesmo se acontecesse, não seria possível alcançar a meta proposta. Além disso, o aumento da temperatura global em 2ºC representaria no Brasil um aumento da ordem de 3ºC a 3,5ºC, em média. Imagine o que aconteceria em cidades como Cuiabá e Manaus.” Entretanto, se a ação do homem se mantiver como a atual pelos próximos 100 anos, o professor afirma que a temperatura média do planeta poderia aumentar de 5ºC a 7º C, o que seria uma catástrofe.
De acordo com Artaxo, um caminho para lidar com as mudanças climáticas, mais do que tratados internacionais, é uma mudança radical em nossa sociedade, desde os padrões de consumo até a política. “Temos que rever a forma como medimos o sucesso de um país. Por que, em vez de relacionar sucesso ao que é produzido pela indústria – portanto estimulando produção e consumo insustentáveis-, não medimos a felicidade da população com o sistema implementado?”
Além dessa ideia, que já é posta em prática no Butão, país do sul da Ásia, o professor sustenta a necessidade de um sistema global de governança. “Um presidente pensa no que vai acontecer nos quatro anos de seu mandato, assim como um empresário pensa no lucro de sua empresa naquele ano. Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente.”
Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente
Apesar de parecer utópico, os professores dão exemplos práticos para mostrar que a mudança é possível. Artaxo lembra que já possuímos tecnologia suficiente para produzir carros 70% a 90% mais eficientes que os atuais, enquanto Brandini fala de energias alternativas que poderiam ser exploradas pelo Brasil, como a eólica, a solar e a das marés, tecnologias que não são comparativamente caras e cujas fontes existem em abundância no País. Artaxo defende também o desmatamento zero para manter a capacidade de retenção carbônica da Amazônia, e Brandini afirma que “se tivéssemos uma educação de qualidade, não seria necessário educação ambiental, pois as pessoas saberiam da importância do meio ambiente”.

Evento é uma iniciativa da USP, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo e apoio da Livraria Cultura – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Ambos confiam na capacidade do ser humano de superar dificuldades, por meio de esforço, conscientização e da ciência – a qual Artaxo defende que deveria ter maior influência em decisões políticas e na elaboração de políticas públicas. “As baleias já foram a maior commodity do planeta, pois o óleo de sua gordura era o que iluminava as cidades da Europa. Se não tivéssemos descoberto o petróleo, elas teriam sido extintas. Depois o petróleo trouxe outros tantos problemas, mas, como já fizemos antes, podemos resolvê-los”, diz Brandini.
A oitava e última edição do USP Talks em 2016 ocorreu na tarde de quarta-feira, 30 de novembro, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. A série de eventos é uma iniciativa das Pró-Reitorias de Graduação e de Pesquisa da USP, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo e apoio da Livraria Cultura. Mais informações na página do Facebook.

in EcoDebate, 02/12/2016

BRASIL : CONCENTRAÇÃO DE TERRAS / REFORMA AGRÁRIA.

Menos De 1% Das Propriedades Agrícolas Detém 45% Da Área Rural No País

Propriedade rural em Ulianápolis, Pará,
Estabelecimentos com menos de 10 hectares representam cerca de 47% do total das propriedades brasileiras, mas ocupam menos de 2,3% da área rural total. Foto: MMA/Arquivo
 
Quase metade da área rural brasileira pertence a 1% das propriedades do país, de acordo com o estudo inédito Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural divulgado ontem (1º) pela organização não governamental (ONG) britânica Oxfam. Os estabelecimentos rurais a partir de mil hectares (0,91%) concentram 45% de toda a área de produção agrícola, de gado e plantação florestal.
Por outro lado, estabelecimentos com menos de 10 hectares representam cerca de 47% do total das propriedades do país, mas ocupam menos de 2,3% da área rural total. Esses pequenos produtores produzem mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, já que as grandes monoculturas exportam a maior parte da produção.
O estudo mostra a cidade de Correntina, na Bahia, como exemplo emblemático dessa realidade, onde os latifúndios ocupam 75,35% da área total dos estabelecimentos agropecuários. Nessa cidade, a pobreza atinge 45% da população rural e 31,8% da população geral. Os municípios com maior concentração de terra apresentam os menores índices de Desenvolvimento Humano e aqueles com a menor concentração tinham os melhores indicadores sociais. A diretora executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia, explicou que a concentração de terra gera desigualdade em todos os setores vinculados à produção da terra.
“Quanto maior a concentração de terra, maior a concentração de investimento, de maquinário, que vai se expandindo para diferentes setores. A modernização da agricultura não demonstrou melhora na condição de vida da população”, comentou Katia. “Números preliminares mostram que os municípios com maior concentração têm nível maior de pobreza”.
As grandes propriedades rurais com mais de mil hectares concentram 43% do crédito rural, enquanto para 80% dos menores estabelecimentos esse percentual varia entre 13% e 23%.
A reforma agrária é fundamental para reverter o quadro, mas não basta, argumentou a diretora da ONG. “O governo pode assumir medidas e políticas no mundo rural para incentivar maior distribuição, especialmente na área de investimentos, apoio técnico e programas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o Programa Nacional de Alimentação Escolar”, acrescentou.
A concentração de terra também contribui para a incidência de trabalho escravo, alerta o estudo. De 2003 a 2013, 82% das autuações do Ministério do Trabalho e Emprego por trabalho análogo ao de escravo ocorreram no oeste da Bahia, com grande concentração de terra. Somente em Correntina, 249 trabalhadores foram encontrados nessas condições.
O estudo agrupou os municípios de acordo com a relevância agropecuária: 1% com maior concentração de terras, os 19% seguintes e os 80% restantes, com base no último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, e o IBGE Cidades, de 2010.
Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) indicam que 729 pessoas físicas e jurídicas se declaram proprietárias de imóveis rurais com dívidas à União de mais de R$ 50 milhões cada, aproximadamente R$ 200 bilhões. Esse grupo, segundo a pesquisa, tem propriedades de área suficiente para assentar quase 215 mil famílias, quase duas vezes o número de famílias que estão acampadas hoje no Brasil esperando por reforma agrária.
América Latina
A mesma realidade ocorre na América Latina, em que 1% concentra 51,19% de toda a superfície agrícola da região. O dado está no relatório Terra, Poder e Desigualdade na América Latina, também divulgado hoje, que analisa o cenário de concentração das propriedades rurais em 15 países da região com base nos censos agropecuários locais.
O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking da região do coeficiente de Gini – que mede a desigualdade na distribuição de terra, em que 0 corresponde à completa igualdade e 1 corresponde à completa desigualdade. A nota brasileira é 0,87. O Paraguai aparece com o pior índice de Gini (0,93), seguido do Chile (0,91) e da Venezuela e Colômbia (0,88), onde 0,4% das propriedades concentram mais de 67% da terra produtiva.
Conflitos no campo
A modernização da agricultura e os assentamentos e demarcações de terras indígenas não foram capazes de aplacar os conflitos, que já mataram 2.262 pessoas entre 1964 e 2010, de acordo com o estudo. A violência no campo pela disputa da terra ocasionou 50 mortes no ano passado e 1.217 conflitos,  segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O Brasil está no topo da lista dos países onde mais ativistas ambientais e da terra foram mortos em 2015, segundo outra pesquisa divulgada em junho deste ano pela ONG Witness.
Os estados mais violentos são Rondônia e o Pará. No período, foram registrados momentos de pico, em especial na década de 80, quando aumentaram as mobilizações sociais e as lutas por terra, década que também marcou a fundação do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Um novo pico foi registrado durante o primeiro governo Lula, de 2003 a 2006. Apenas em 2003 ocorreram 496 ocupações – em 2010 foram 180.
Incra
De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mais de 1,3 milhão de famílias já foram assentadas desde o início do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). O programa foi criado em 1996. Ao todo, 977 mil  famílias vivem atualmente em assentamentos e áreas reformadas.
As titulações estão sendo efetivadas, informou o instituto, por meio de trabalhos de revisão ocupacional em campo, “o que está sendo feito com maior expressão neste último bimestre do ano, a partir do desbloqueio de recursos destinados ao órgão”, diz a nota. “Todas as 30 superintendências estão mobilizadas neste sentido, já que foi estabelecida como meta a emissão de cerca de 70 mil títulos de propriedade até o fim do próximo ano”.
Ainda segundo o Incra, as metas para os próximos anos dependem da aprovação do orçamento a ser destinado à autarquia no início de 2017. O instituto ressaltou que o contingenciamento de gastos deste ano reduziu em cerca de 40% os recursos destinado à reforma agrária. Além disso, informou o Incra, houve alteração de diretrizes e um passivo ocasionado pelo bloqueio determinado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que paralisou o acesso de famílias beneficiárias às políticas públicas asseguradas pelo Programa Nacional da Reforma Agrária.
Por Flávia Villela, da Agência Brasil, in EcoDebate, 02/12/2016

PAÍSES AMEAÇADOS PELO AUMENTO DO NÍVEL DO MAR.

Os Países Mais Ameaçados Pelo Aumento Do Nível Do Mar, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

os 25 países com o mais alto número de pessoas sujeitas ao risco de inundações em áreas costeiras
[EcoDebate] O aquecimento global é o maior risco da sociedade contemporânea. Em artigo anterior, com base em um relatório divulgado no mês de maio de 2016 pela Christian Aid, mostrei como 20 grandes cidades serão afetadas pelo aquecimento global. Os últimos dados mostram que a temperatura nos primeiros 12 meses de setembro de 2015 a agosto de 2016 ficou 1º C acima da média do século XX.
Quanto mais a temperatura esquenta, maiores são as áreas de degelo da Groenlândia, da Antártica e dos glaciares. A água que derrete aumenta o nível do mar. Uma avaliação do Banco Mundial estima que se as temperaturas globais subirem 2° C até 2100, o aumento médio do nível do mar poderá ficar entre 80 cm e 1 metro até o final do século. Além disto, o aquecimento global deve provocar tempestades e furacões como o tufão Haiyan que devastou as Filipinas em 2013. Chuvas mais fortes e a elevação do nível do mar vão provocar grandes inundações nas áreas costeiras das grandes cidades dos países mais populosos.
O relatório da Christian Aid mostra que a população exposta ao risco, no total dos 25 países mais vulneráveis, era de 510 milhões no ano 2000, deve passar para 824 milhões em 2030 e atingir 1,3 bilhão de pessoas até 2060.
A China será o país mais afetado com 245 milhões de pessoas sob risco das mudanças climáticas em 2060. A Índia vem em segundo lugar com 216 milhões de pessoas. Bangladesh vem em seguida com 110 milhões de pessoas. Em quarto lugar aparece a Indonésia com 94 milhões e em quinto o Vietnã com 80,4 milhões de pessoas em risco. Dois países da África aparecem na ordem seguinte, sendo o Egito com 63,5 milhões e a Nigéria com 57,7 milhões de pessoas sob risco de inundações.
Os Estados Unidos aparecem em oitavo lugar com 43,9 milhões de pessoas sob risco. O Brasil aparece em 15º lugar, com 18,7 milhões de pessoas sob risco dos efeitos do aquecimento global e do aumento do nível do mar.
O Reino Unido aparece em 22º lugar, com uma população de 8,8 milhões de pessoas sob risco de inundações. Um aquecimento de dois graus pode colocar Londres debaixo d’água, como mostra a ilustração abaixo. As perdas seriam incalculáveis para toda a Grã-Bretanha.

Londres, após um aquecimento global de 2ºC
Evidentemente, os prejuízos não ficarão restritos a estes 25 países. Todo o planeta será afetado. O relatório da Christian Aid conclui com a seguinte reflexão:
A mudança climática não é um conceito abstrato, mas sim uma realidade cada vez mais sentida por milhões de pessoas em todo o mundo. Para aquelas que vivem em regiões costeiras e têm suas vidas ameaçadas, este relatório mostra que esse impacto só vai ficar mais grave ao longo das décadas. As alterações climáticas desempenharão um papel cada vez maior nos desastres humanitários, especialmente ao longo do litoral. Por isso que é vital que tenhamos alguma reflexão conjunta e que a mitigação do clima e a adaptação se tornem uma parte essencial dos esforços nacionais e internacionais para fazer face às crises humanitárias. Ano passado houve o Acordo de Paris e a Cúpula Humanitária. Se quisermos garantir o padrão de vida das populações costeiras, com resiliência em face às ameaças humanitárias, é essencial que estas duas vertentes atuem conjuntamente com um objetivo único”.
Relatório do Banco Mundial (GFDRR, 2016) mostra que, em 2050, um montante de US$ 158 trilhões em ativos estarão em risco de inundação e o número de 1,3 bilhão de pessoas estarão em risco de se tornarem “refugiados” do clima. O relatório considera que os prejuízos causados por desastres já estão aumentando ao longo das últimas décadas e a tendência é piorar, impulsionado em grande parte pela mudança climática e a urbanização. Em relatório anterior (GFDRR, Bringing Resilience to Scale), divulgado na conferência de riscos, nas últimas duas décadas, os eventos climáticos extremos já afetaram mais de quatro bilhões de pessoas, matando mais de 600.000 e causando $ 1,9 trilhão em perdas econômicas.
Os crescentes prejuízos provocados pelas mudanças climáticas devem aumentar a probabilidade de a economia internacional entrar na fase conhecida como “estagnação secular”, com baixa produtividade e baixo crescimento econômico. Numa situação de aumento das desigualdades, o mundo pode ver o encontro do choque ambiental e o choque social.
O aquecimento global é um fenômeno típico da “Sociedade de Risco”, como definiu Ulrich Beck. Crescem as externalidades negativas. As mudanças climáticas, provocadas pela concentração de CO2 tal como descrito acima, não são fenômenos naturais, mas “incertezas fabricadas” que podem gerar uma grande catástrofe global. Segundo Beck, estas “incertezas fabricadas” caracterizam-se por três aspectos: “deslocalização” (suas causas e consequências não se limitam a um local ou espaço geográfico – são onipresentes); “incalculabilidade” (são incalculáveis); e “não-compensabilidade” (é o fim do sonho da segurança da modernidade em tornar os perigos cada vez mais controláveis). O desafio do aquecimento global é um fenômeno que se encaixa na definição de Beck sobre imperativos cosmopolitas: se não houver cooperação haverá fracasso!
Portanto, é urgente reverter a tendência de aumento das emissões de gases de efeito estufa e evitar as consequências nefastas do aumento da temperatura global. Caso contrário, toda a humanidade e a vida na Terra estarão em risco.
Referências:
Aquecimento Global – Canal do Pirula
https://www.youtube.com/watch?v=qAc5d_8MpTc
Earth Under Water in Next 20 Years – Full Documentary
https://www.youtube.com/watch?v=-twZDMe8tYI
Earth In 2050 – HD Documentary 2015
https://www.youtube.com/watch?v=BKbZxKZJM_4
Future Sea Level Rise: Top 10 Countries In Danger
https://www.youtube.com/watch?v=boKd_Pb2HUA
What the Earth would look like if all the ice melted
https://www.youtube.com/watch?v=VbiRNT_gWUQ
NASA’s Earth Minute: Sea Level Rise
https://www.youtube.com/watch?v=msnOHuPep9I
Ice Melt, Sea Level Rise and Superstorms Video Abstract James Hansen
https://www.youtube.com/watch?v=JP-cRqCQRc8
World Bank, GFDRR. The making of a riskier future: How our decisions are shaping future disaster risk, © 2016 Global Facility for Disaster Reduction and Recovery, Washington.
https://www.gfdrr.org/sites/default/files/publication/Riskier%20Future.pdf
World Bank, GFDRR. Bringing Resilience to Scale, © 2016 Global Facility for Disaster Reduction and Recovery, Washington.
https://www.gfdrr.org/sites/default/files/publication/GFDRR_2015_AR_web.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 02/12/2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

DESINDUSTRIALIZAÇÃO E DESEMPREGO

Desindustrialização, Desemprego E Desdesenvolvimento, Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

evolução da participação da indústria de transformação brasileira no PIB
[EcoDebate] A precoce desindustrialização brasileira atingiu índice recorde de retrocesso em 2015. A participação da Indústria de Transformação no PIB ficou em 11,4% no ano passado, número mais baixo do que os 12,1% de 1947. A Indústria de Transformação que chegou a ser responsável por 21,8% do PIB no início da Nova República (1985), caiu bastante nos governos Sarney e Collor, subiu no governo Itamar, voltou a cair durante o Plano Real no primeiro governo FHC e subiu no segundo FHC e no início do governo Lula. Porém, a desindustrialização precoce se acelerou no segundo governo Lula, nos 5,5 anos dos governos Dilma. Pelos indicadores de desempenho da indústria em 2016, tudo indica que este processo deve continuar no governo Temer. Aliás a crise fiscal dos Estados e a recessão indicam que os anos de 2017 e 2018 já estão quase perdidos.
Países ricos também passam pelo fenômeno de desindustrialização, mas o efeito é diferente quando a indústria perde espaço para o setor de serviços avançados, como a produção de software, ciência, design, etc. Alguns países investiram na capacidade produtiva intelectual da população por meio de educação e pesquisa, o que gerou empregos mais sofisticados no setor de serviços. Neste caso é um processo de transformação e de geração de mais riqueza, e não necessariamente de perda dela.
A Unctad considerada que a desindustrialização é precoce quando uma economia não chega a atingir toda sua potencialidade produtiva manufatureira e, em vez de evoluir em direção à indústria de serviços com alto valor agregado – setor terciário – regride para a agricultura ou cai na informalidade.
Segundo Wilson Cano (dez. 2012), professor da Unicamp e pesquisador da industrialização brasileira, considera que o Brasil está passando por um forte processo de desindustrialização: “A industrialização atingida nas décadas anteriores deteriorou-se face à ausência de políticas industriais e de desenvolvimento e da conjugação de juros elevados, falta de investimento, câmbio sobrevalorizado e exagerada abertura comercial. Nesse contexto, ocorre uma desindustrialização nociva que fragiliza o país e compromete sua economia. Na ausência de uma política macroeconômica consentânea com a política industrial, o desenvolvimento fica comprometido. Por sua vez, cabe lembrar que o subdesenvolvimento não representa uma etapa ou acidente de percurso, mas um processo que se inicia com a inserção no mercado internacional capitalista no século XIX e, desse processo, o Brasil ainda não se libertou”.
Segundo Eduardo Gudynas (26/12/2009) “Décadas atrás, os chamados setores extrativistas como a mineração e o petróleo estavam no centro de muitas críticas: eram exemplo das chamadas ‘economias de enclave’, sob controle transnacional, geradores de enormes lucros, mas rodeadas por pobreza e impactos ambientais. A esquerda clássica sempre questionou esse tipo de economia, acompanhou muitos protestos sociais contra elas e proclamou a necessidade de alternativas. Hoje em dia, quando quase todos os governos da América do Sul estão nas mãos da esquerda, o extrativismo segue gozando de muita boa saúde. Em primeiro lugar, em quase todos os países sob governos progressistas se mantiveram os clássicos setores extrativistas: por exemplo, Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador) apoiam decididamente a exploração de hidrocarbonetos, Evo Morales promove a mineração clássica e o gás, enquanto a chilena Michelle Bachelet persiste em expandir a mineração”.
Ou seja, o Brasil está passando por uma especialização regressiva da sua estrutura produtiva. Isto é péssimo para o desenvolvimento nacional. Se o país perde sua base industrial mais avançada isto tem um horrível impacto geral na economia e um efeito negativo na criação de trabalho e na geração de emprego formal.
No dia 25 de novembro de 2016, o IBGE divulgou os dados da PNAD 2015 (a última da série). Nota-se, pelo gráfico abaixo que a taxa bruta de ocupação (população ocupada sobre a população total) subiu para ambos os sexos entre 2002 e 2008 (primeiro governo Lula), o que coincide com uma ligeira recuperação da industrialização brasileira conforme mostrado no gráfico acima. O número de homens ocupados era de 46,8 milhões (54,7%) em 2002 e passou para 53,8 milhões (57,6%) em 2008. No mesmo período, o número de mulheres ocupadas passou de 32,9 milhões (36,7%) para 39,6 milhões (40,2%). Ou seja, a recuperação da indústria significou melhoria no mercado de trabalho.
população ocupada (po) sobre a população total, por sexo, Brasil: 2002-2015 Porém, com a valorização cambial e a perda de produtividade e competitividade da economia brasileira, o mercado de trabalho ficou estagnado entre 2008 e 20014 e caiu fortemente em 2015, acompanhando a deterioração da indústria nacional. A taxa bruta de ocupação masculina que estava em 57,6% em 2008 caiu ligeiramente para 56,9% em 2014 e teve uma grande queda para 54,6% em 2015. A taxa bruta de ocupação feminina que estava em 40,2% em 2008 subiu ligeiramente para 46,6% em 2014 e teve uma grande queda para 38,4% em 2015. As manifestações populares de junho de 2013 já foram resultado da perda de dinamismo do mercado de trabalho, que atingiu principalmente os jovens das grandes cidades do país. A baixa popularidade dos governos Dilma e Temer são também resultados da crise do mercado de trabalho.
Em 2015 o rendimento médio mensal real de todas as fontes (das pessoas de 15 anos ou mais de idade com rendimento) foi de R$1.746, 5,4% menor que em 2014 (R$1.845). Houve redução do rendimento médio recebido em todos os décimos da distribuição de renda. Cálculos do ex-ministro Marcelo Neri indicam que a queda do PIB de 3,8%, de 2015, jogou 3,6 milhões de brasileiros na pobreza, que atingiu a taxa de 10% da população do país. A desigualdade da renda pessoal (mas não funcional) caiu, mas isto significa apenas que todos estão mais pobres. E o mais grave é que a pobreza deve continuar subindo em 2016 e 2017, devido à piora do mercado de trabalho.
Depois das eleições presidenciais de 2014 o Brasil entrou em uma rota declinante. O gráfico abaixo, com base nos dados do CAGED/MTE, mostra que o Brasil já tem quase dois anos de perdas constantes do emprego formal. Em 23 meses, foram fechados quase 3 milhões de empregos formais, o que representa 129 mil vagas por mês ou 4,3 mil vagas por dia. Em outubro de 2016 foram perdidos 74.748 empregos, mostrando que a recuperação da economia ainda é uma meta distante.

comportamento do emprego formal no Brasil: dez/2014 a out/2016

De acordo com a PNAD Continua, do IBGE, no terceiro trimestre de 2016, a taxa composta da subutilização da força de trabalho (que agrega a taxa de desocupação, taxa de subocupação por insuficiência de horas e da força de trabalho potencial) ficou em 21,2%, chegando a 22,9 milhões de pessoas. No 2º trimestre de 2016, para Brasil, essa taxa foi de 20,9% e, no 3º trimestre de 2015, de 18,0%. Taxa de subutilização da força de trabalho das mulheres é de 25,3%
A taxa de desocupação (11,8% no Brasil) subiu em todas as grandes regiões no 3º trimestre de 2016 em relação ao mesmo período de 2015: Norte (de 8,8% para 11,4%), Nordeste (de 10,8% para 14,1%), Sudeste (de 9,0% para 12,3%), Sul (de 6,0% para 7,9%) e Centro-Oeste (de 7,5% para 10,0%). São mais de 12 milhões de desemprego aberto.
Além da perda de emprego, a desindustrialização significa perda de produtividade, perda de renda e perda de qualidade de vida. Desta forma, o Brasil está entrando em um processo não só de desindustrialização, mas também de des-desenvolvimento. O desperdício do bônus demográfico é o mesmo que jogar fora uma oportunidade ímpar para o avanço social. Não haverá outra janela de oportunidade igual.
Se continuar neste ritmo, o futuro da economia brasileira no século XXI vai ser voltar para a estrutura produtiva do século XIX. Será um retrocesso épico. Teremos não só uma geração perdida, mas um futuro sem perspectiva.
Referências:
CANO, Wilson. A desindustrialização no Brasil. Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, Número Especial, p. 831-851, dez. 2012.
GUDYNAS, E. O novo extrativismo progressista na América do Sul, Correio Cidadania, 26/12/2009
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 28/11/2016

DEGELO ÁRTICO E SUAS CONSEQUÊNCIAS.

Degelo Ártico Ameaça Os Ecossistemas Locais E Pode Ter Consequências Catastróficas


Degelo ártico ameaça resto do mundo – Relatório apresenta 19 pontos críticos em que mudanças climáticas na região polar podem causar impactos permanentes; temperaturas em partes do Ártico estão até 20ºC mais altas que a média
 
O Ártico enfrenta mudanças climáticas bruscas que ameaçam os ecossistemas locais e podem ter consequências catastróficas para o restante do planeta. É o que mostra o Arctic Resilience Report, relatório resultante de cinco anos de pesquisa de cientistas do Instituto de Pesquisas Ambientais de Estocolmo.
O relatório apresenta 19 “pontos de virada” já em curso ou próximos de entrar em curso, que podem ser desencadeados pelo derretimento da banquisa (camada de mar congelado que recobre o Oceano Ártico) na região. Esses pontos de virada são caracterizados por mudanças rápidas ou bruscas em um sistema natural, que podem causar alterações irreversíveis em outros ecossistemas próximos. Verões sem gelo marinho, o colapso de sistemas de pesca do Ártico, transformação de paisagens e mudanças de solo e vegetação estão entre as possíveis consequências cujos efeitos poderiam afetar mais regiões do planeta.
Um desses pontos é o chamado “feedback de albedo”, ou a mudança no padrão de absorção de radiação pela superfície. Com o aquecimento global, o gelo e a neve (que são brancos e rebatem a maior parte da radiação solar de volta para o espaço) dão lugar à tundra, mais escura, que absorve radiação e esquenta mais a região. Isso, por sua vez, eleva a temperatura do solo, liberando gás metano da matéria orgânica antes congelada, que eleva ainda mais as temperaturas, num círculo vicioso. Já a mudança na distribuição de gelo no oceano pode causar mudanças que chegam até a Ásia.
O mais temido desses “pontos de virada” é a perda do gelo marinho permanente na bacia do Ártico, o que causaria problemas sérios para espécies como o urso polar, mas também mudaria os padrões meteorológicos em boa parte do hemisfério Norte, já que o regime de ventos na região é controlado em parte pelo Oceano Ártico. Embora o IPCC (o painel do clima da ONU) tenha descartado que o gelo da região já tenha atingido o ponto de virada, o monitoramento da banquisa em 2016 tem deixado os cientistas de cabelo em pé.
A extensão mínima de gelo marinho no verão foi a segunda menor registrada desde o início das medições com satélites, no fim dos anos 1970. E, neste inverno, o gelo está derretendo em algumas regiões em vez de se recompor, como seria esperado. Alguns locais têm registrado temperaturas até 20oC superiores à média para novembro.
“Sistemas sociais e biofísicos do Ártico estão profundamente ligados com os sistemas sociais e biofísicos do nosso planeta. Mudanças rápidas, dramáticas e sem precedentes nessa sensível região provavelmente serão sentidas em outros lugares. Como lembramos com frequência, o que acontece no Ártico não se restringe somente ao Ártico”, afirma o documento.
“O Ártico está passando por mudanças rápidas e dramáticas, e é fundamental e urgente desenvolver resiliência na região. Essa resiliência não depende apenas do comprometimento e imaginação das comunidades locais; a população precisa de apoio de governos e outros parceiros para encontrar soluções sabendo que terão auxílio externo para implementar seus planos”, conclui.
in EcoDebate, 29/11/2016