sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FEBRE AMARELA : DOSE FRACIONADA DA VACINA

Febre amarela: dose fracionada da vacina imuniza por oito anos diz pesquisa do Bio-Manguinhos/Fiocruz


Por Pamela Lang (Agência Fiocruz de Notícias)
A estratégia anunciada pelo Ministério da Saúde (MS), na última terça-feira (9/1), de fracionar a vacina de febre amarela para três estados brasileiros teve como base um estudo da Fiocruz, realizado pelo seu Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que comprova que 1/5 da dose da vacina gera uma proteção equivalente à da dose padrão por oito anos.
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico (foto: Bio-Manguinhos/Fiocruz)
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico (foto: Bio-Manguinhos/Fiocruz)

Durante o anúncio do ministro da Saúde, Ricardo Barros, a presidente da Fundação, Nísia Trindade Lima, reforçou a importância estratégica da Fundação nas áreas de produção, pesquisa e vigilância. “A Fiocruz tem o papel não apenas de produzir as vacinas de febre amarela, mas também de produzir o conhecimento científico necessário para tomadas de decisão e atuar em estratégias de vigilância, que são fundamentais para o debate de novos estudos”, explicou.
A pesquisa com doses fracionadas da vacina de febre amarela teve início em 2009, com a aplicação de diferentes dosagens em 900 voluntários de um estudo clínico. A iniciativa teve financiamento da organização britânica Wellcome Trust e apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em 2017, os mesmos voluntários foram chamados para participar de uma segunda etapa da pesquisa que avaliou a soropositividade, ou seja, a imunidade que eles ainda tinham após o período de oito anos. Da amostra inicial, foram analisados dados de 319 participantes.
Os resultados apontaram que mesmo com a aplicação da dose fracionada em 1/5 da dose padrão, a vacina de febre amarela de Bio-Manguinhos/Fiocruz ainda sustentava a proteção similar à inicial. A dose fracionada em 1/5 não é, portanto, mais fraca que a dose padrão. Isso acontece porque, apesar de fracionada, a dose ainda induz o organismo a produzir anticorpos em níveis necessários à proteção contra a doença.
“Verificamos que a potência da vacina excede o mínimo suficiente para induzir a produção de anticorpos no organismo necessários à imunização. Com uma potência mais baixa, como uma fração de 1/5, por exemplo, conseguimos obter o mesmo efeito”, explica um dos autores do estudo e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Luíz Antônio Camacho.
Outro ponto importante para entender a segurança do uso da dose fracionada está relacionado à concentração viral da dose padrão. A OMS exige uma concentração mínima de 1 mil UI (unidades internacionais) para que a vacina seja considerada eficaz. A vacina padrão de Bio-Manguinhos tem uma concentração de cerca de 27 mil UI. Ou seja, quando se fala em fracionar a potência da vacina em 1/5, trata-se de uma dose com concentração viral ainda cinco vezes maior do que a mínima exigida pela OMS.
“O produtor precisa fazer uma vacina com concentração maior do que a exigida pela OMS, porque distribuímos essa vacina a lugares distantes, em que, muitas vezes, ela vai ser transportada em condições adversas, quando, por exemplo, ela tem que ser transportada de barco para o interior da Amazônia. Temos que garantir que, mesmo com algum nível de perda, ela chegará ao final de sua validade, de três anos, com uma concentração viral acima da exigida para imunização. O lote a ser fracionado é recente e será distribuído em centros urbanos. Há dados mostrando que a vacina tem boa estabilidade quando estocada, transportada e conservada nas condições adequadas da maioria das unidades de saúde. Nosso estudo ainda prevê uma margem maior. Verificamos que fracionando a dose em até 1/9, as pessoas ainda estão imunizadas após oito anos. Ou seja, quando tenho 1/5 da dose, estamos bem acima do nível necessário para uma imunização segura, segundo os parâmetros da OMS”, explica Camacho.
A primeira etapa desse estudo, em 2009, já foi capaz de dar suporte à estratégia de uso de doses fracionadas, adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para o controle da epidemia na República Democrática do Congo. Na época, as vacinas utilizadas para esse fracionamento também foram produzidas pela Fiocruz. Apesar de haver quatro laboratórios no mundo certificados para a produção de vacinas de febre amarela, vale destacar que a OMS autorizou o fracionamento apenas de vacinas fabricadas e distribuídas por Bio-Manguinhos/Fiocruz, o maior fornecedor do mundo.
Segundo a presidente da Fiocruz, os estudos não param. “O que demonstramos até agora é que nesse período de tempo é absolutamente seguro fracionar a dose da vacina. Quando se fala em oito anos, não quer dizer que a vacina só dura oito anos. Quer dizer que está comprovado que, após oito anos, esse grupo manteve a soropositividade, ou seja, a proteção contra doença. Mas os estudos seguirão e poderemos continuar avaliando o tempo de duração da imunidade dessas pessoas”, afirma Nísia Trindade Lima.
Vacinação
Gestantes, crianças de nove meses a menores de dois anos e pessoas com condições clínicas especiais não são indicados para receber a dose fracionada, por falta de estudos específicos, e receberão, assim, a dose padrão.
“A dose fracionada é para uso emergencial, quando precisamos vacinar um grande número de pessoas num curto espaço de tempo. A vacina é a mesma que vem sendo usada na rotina e em campanhas de vacinação. Em vez de usar 0,5 ml, usa-se 0,1ml. No futuro, com o estudo de dose resposta em crianças menores de dois anos, se observarmos os mesmos resultados que observamos em adultos, poderemos mudar, junto à Anvisa, a potência da vacina. Mas enquanto não fazemos esse estudo, não podemos alterar a formulação da vacina. E ainda vamos levar alguns anos para mostrar que os resultados são os mesmos para todas as faixas etárias”, explica o assessor científico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Akira Homma.
Em caso de viagens internacionais, o viajante também deve tomar a dose padrão, e apresentar o comprovante de viagem no ato da vacinação.
A vacina, com dose padrão ou fracionada, é contraindicada para pacientes em tratamento de câncer, pessoas com imunossupressão e com reação alérgica grave à proteína do ovo.
A campanha do Ministério da Saúde terá duração de 15 dias e mobilizará a população do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Em São Paulo, a vacinação será realizada em 52 municípios. A meta é vacinar 6,3 milhões de pessoas entre 3 e 24 de fevereiro. No Rio de Janeiro, a vacinação será realizada em 15 municípios, com meta de 10 milhões de pessoas vacinadas. Na Bahia, a vacinação será realizada em oito municípios, com meta de 3,3 milhões de imunizados. O período de vacinação dos dois últimos estados é entre 19 de fevereiro a 9 de março.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/01/2018

QUEIMADAS : IMPACTO NO CLIMA E NA SAÚDE.

Estudos analisam as queimadas e seu impacto no clima e na saúde


Por Graça Portela (Icict/Fiocruz)
O ano de 2004 ficou marcado pelos 270.295 focos de incêndio em todo o país – o ápice do número de queimadas no século 21. Na época, apenas no bioma Amazônia, que ocupa cerca de 40% do território nacional e onde estão os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, e também partes do Maranhão, Tocantins e Mato Grosso, foram 145.251 focos.
Em 2017, foram 275.120 focos de incêndio em todo o território nacional, conforme dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um aumento de 1,78%. O bioma Amazônia, no entanto, teve uma pequena redução, com 132.296 focos. Contudo, não há muito o que comemorar – segundo reportagem do jornal O Globo, “o fogo aumentou em áreas de floresta natural, onde não chegava antes”, afirma Alberto Setzer, responsável pelo monitoramento de queimadas do Inpe. Ao lado, os dados das queimadas no Brasil e no bioma Amazônia, fornecidos pelo Inpe.
Em Rondônia, onde está situado o sítio sentinela do Observatório Nacional de Clima e Saúde, os focos de fogo apresentam também um número elevado. No gráfico abaixo, é possível verificar o crescimento desses focos no período entre 2012 e 2017:
Porto Velho
O sítio sentinela está localizado na capital rondonense, em Porto Velho, uma das áreas mais afetadas por conta das queimadas na região amazônica. Ele é coordenado pela pesquisadora associada do Observatório, Sandra Hacon, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e o pesquisador Christovam Barcellos, do Instituto de Comunicação e Informalão Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz).
Segundo a pesquisadora Hacon, desde o Programa de Integração Nacional, na década de 1970, o desmatamento na região amazônica começou a ocorrer com maior intensidade, com o processo de colonização e o incentivo de ocupação do território pelo governo federal. “Esse intenso processo de desmatamento dará lugar, mais tarde, a indústria madereira e a pecuária na região, que destrói de forma intensa e extensa o solo da Amazônia, com o desmatamento, que leva às queimadas”, explica. Mas, como as queimadas podem prejudicar à saúde da população da região? Hacon afirma que “há a emissão de material particulado, microscópico, que em sua composição tem vários compostos e elementos. Esse material particulado, principalmente, é que vai prejudicar a saúde da população da Amazônia”.
Ela chama a atenção sobre a alta taxa de desmatamento de Rondônia – cerca de 70% de seu território já havia sido desmatado para plantações e pastagens. Com isso, “aumentaram as taxas de doenças respiratórias, principalmente nos grupos vulneráveis – crianças e idosos – e pessoas com doenças pregressas, relacionadas tanto quanto às doenças respiratórias, quanto às doenças cardiovasculares”.
Em um estudo de 2013, intitulado Distribuição espaço-temporal das queimadas e internações por doenças  respiratórias em menores de cinco anos de idade em Rondônia, 2001 a 2010, das pesquisadoras Poliany Rodrigues (Ensp/Fiocruz), Eliane Ignotti  (Unemat e UFMT, ambas do Mato Grosso) e Sandra Hacon, chama a atenção de que “as áreas com maior número de focos de queimadas diferiram daquelas com as taxas mais elevadas de internações por doenças respiratórias. Isso pode demonstrar a importância do transporte deste material particulado em longas distâncias na Amazônia.
Supõe-se que a exposição aos poluentes provenientes das queimadas não necessariamente coincidiu com o local de ocorrência do foco de queimada, razão pela qual os focos de calor devem ser utilizados como indicadores indiretos de exposição”.  Além disso, as pesquisadoras recomendam que haja um “monitoramento do material particulado proveniente das queimadas na microrregião de Porto Velho, apontada neste estudo como área crítica por apresentar a maior concentração de focos de queimadas da região. Também é relevante acompanhar os indicadores de saúde sobre os impactos à saúde humana provocados pelos poluentes gerados nas queimadas, com a implantação de áreas sentinelas pelos programas de vigilância à saúde na Amazônia”.
Para se ter uma ideia do problema, as queimadas acorrem mais intensamente entre os meses de julho e outubro, sendo que em setembro, há o ápice. Imagens do satélite Modis Terra Acqua, da Nasa, entre os dias 9 e 26 de setembro de 2017, mostram a situação da região:
O site do Icict/Fiocruz levantou alguns dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), do Datasus, sobre doenças respiratórias na região de 2012 até novembro de 2017. Como no estudo das pesquisadoras, chama a atenção o número de crianças de até quatro anos, com internações derivadas de doenças respiratórias:
Respiração comprometida
Outro estudo, este de 2015, orientado por Hacon, Poluição atmosférica e seus efeitos na saúde infantil: um estudo sobre biomarcadores de estresse oxidativo em crianças e adolescentes da Amazônia Brasileira, da doutora pela Ensp/Fiocruz Beatriz Fátima Alves de Oliveira, reafirma a preocupação dos pesquisadores com os efeitos das queimadas. Seu estudo, que avaliou crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, residentes na Amazônia Ocidental Brasileira, em especial a cidade de Porto Velho, teve como um de seus resultados o seguinte: “que a poluição do ar está associada com diversos mecanismos, tais como inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação, disfunção endotelial, coagulação, aterosclerose, alteração do sistema nervoso autônomo, danos de DNA e desbalanço redox”.
No trecho do vídeo Queimadas na Amazônia – uma ameaça ao ambiente e a saúde, do projeto homônimo da Ensp/Fiocruz, CNPq, Rede Clima, INCT para Mudanças Climáticas e Inova / Ensp (além de outros parceiros) (de 2012), é possível ter uma ideia dos efeitos da queimada na população, neste caso, de Rio Branco, no Acre:

Queimadas x câncer
Foram justamente os estudos do Sítio Sentinela de Porto Velho, na região, coordenados por Sandra Hacon, que ajudaram pesquisadores da USP, UFRN, Fiocruz e UFRJ, além da UFRO, que foi fundamental na logística do estudo, a demonstrarem os impactos das queimadas na floresta Amazônica e que podem ser lidos no artigo “Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells”, que tem entre seus co-autores, o pesquisador do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo, considerado uma das maiores autoridades em análise do clima.
No estudo, os pesquisadores dão evidências de que “as partículas das queimadas ao entrarem nos pulmões aumentam a inflamação, o estresse oxidativo e causam danos genéticos nas células de pulmão humano. O dano no DNA pode ser tão grave que a célula perde a capacidade de sobreviver e morre. Ou esta célula perde o controle celular e começa a se reproduzir desordenadamente, evoluindo para câncer de pulmão”, conforme relatado pela principal autora do estudo, a pesquisadora da USP, Nilmara de Oliveira Alves. Os pesquisadores coletaram amostras do material emitido na atmosfera pelas queimadas na região próxima a Porto Velho, uma das áreas mais atingidas pelos incêndios na Amazônia.
O artigo traz evidências científicas sobre a associação entre queimadas e o risco de câncer. Considerando que as crianças o grupo mais vulnerável exposto às fumaças das queimadas, como explica a pesquisadora Nilmara Alves: “a população que está sendo exposta a esta fumaça apresenta um maior risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão e o agravamento de doenças pré-existentes como asma, bronquite e etc.”, alerta. Para  ela, “sem dúvida, as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Em concordância, estudos recentes da OMS – a Organização Mundial da Saúde – comprovaram que 1,7 milhão de crianças, com menos de 5 anos, morrem no mundo anualmente devido a poluição ambiental e os poluentes atmosféricos são um dos grandes responsáveis”.
A pesquisadora da USP, que atualmente trabalha na França em colaboração com a Agência Internacional de Pesquisa ao Câncer, com ênfase nos estudos dos impactos ambientais, reitera o risco das queimadas para a população: “O que explica estes efeitos negativos é que nesta fumaça existem partículas muito finas que são capazes de chegar ao sistema respiratório, atingir os alvéolos pulmonares e ter contato com a corrente sanguínea, sendo prejudicial para a saúde. Além disso, muitos compostos carcinogênicos estão presentes nestas emissões e as pessoas, involuntariamente, inalam estes compostos tóxicos, contribuindo para os danos nas células pulmonares”.
Os efeitos na saúde da população na maioria das vezes não são imediatos, como afirma a pesquisadora Sandra Hacon. Segundo ela, “dependerá da carga de emissão, qual é a concentração do material particulado na atmosfera. Essas pessoas que aparecem doentes, que apresentam o impacto das queimadas e da poluição atmosférica, são pessoas que já tinham problemas de saúde, mais idosas ou são crianças”, explica. Para Hacon, Aqueles que já têm problemas respiratórios e não usam os medicamentos, apresentarão  os efeitos mais rapidamente. Se eles têm problemas respiratórios e tomam medicação, possivelmente, eles vão apresentar mais tarde e, às vezes, nem apresentar”, afirma.
No vídeo abaixo, Paulo Artaxo fala sobre o trabalho que realiza e mostra o impacto das queimadas no meio ambiente e na saúde das pessoas. Suas palavras são reforçadas pelo atual diretor da Ensp/Fiocruz, Hermano de Castro, pneumologista 
 Mudança necessária
A poluição não escolhe classe social, alerta Hacon, mas ela ressalta que populações mais vulneráveis acabam sendo as maiores vítimas da poluição ambiental: “porque se você tem uma infecção respiratória, uma doença infecciosa, como consequência de uma exposição à poluição atmosférica, esse quadro vai se agravar à medida que, não há ventilação nessa casa, que várias pessoas dormem num mesmo cômodo, que essa pessoa não tenha acesso ao serviço de saúde – não só porque mora longe, mas muitas vezes, por não ter recursos para chegar ao posto de saúde na capital, onde teria mais recursos para ela – e por conta das desigualdades sociais, que são – a cada dia – maiores”.
Christovam Barcellos concorda. Para ele, os dados e as análises sobre o que está ocorrendo em Porto Velho, só ressaltam a importância de se estudar o clima e sua relação com a saúde: “as pesquisas têm levantado diversas evidências de que o clima está mudando devido à ação humana na Terra. Alguns dos efeitos estão sendo já sentidos na área de saúde e existe uma mobilização crescente em torno deste tema. A mídia e a sociedade civil estão cada vez mais atentos a este problema, que é novo e ameaçador”. Mas, população e pesquisadores  já estão alertas e começam a se mobilizar:
Ao finalizarmos a matéria, recebemos a informação que – segundo notícias publicadas na grande imprensa – na versão de um rascunho, enviado para comentários de revisores do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC/ONU), que aborda a estabilização do aquecimento global a 1,5ºC, “será preciso implementar um nível de transformação sem precedentes na área produtiva (industrial e agrícola), caso a humanidade se proponha a evitar as transformações radicais causadas pelas mudanças climáticas”. Fato que só reforça a necessidade de se ter instrumentos como o Observatório Nacional de Clma e Saúde, que permita compartilhar com a população, os gestores e outros pesquisadores informações que possam mudar essa realidade.
Esta é a segunda matéria da série Clima e Saúde, sobre as mudanças climáticas e seus efeitos na saúde do brasileiro, a partir dos estudos realizados pelo Observatório Nacional de Clima e Saúde, do Icict/Fiocruz. A próxima matéria abordará o sítio sentinela Transfronteiriço, entre a Guiana Francesa e o Brasil, que pesquisa as ocorrências de malária na região e seus impactos na população local da fronteira entre os dois países.
Leia mais sobre a série Clima e Saúde no site do Icict/Fiocruz.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/01/2018

2017 : ESTÁ ENTRE OS TRÊS ANOS MAIS QUENTES JÁ REGISTRADOS.

Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados


Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados

Em um claro sinal de mudanças climáticas de longo prazo causadas pelo aumento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa, 2015, 2016 e 2017 foram confirmados como os três anos mais quentes registrados. 2016 ainda mantém o recorde mundial, enquanto 2017 foi o ano mais quente sem um El Niño, que pode aumentar as temperaturas anuais globais.
Uma análise consolidada da Organização Meteorológica Mundial, de cinco principais conjuntos de dados internacionais, mostrou que a temperatura média global da superfície em 2017 foi de aproximadamente 1,1° Celsius acima da era pré-industrial.
O ano de 2016 continua sendo o ano mais caloroso registrado (1,2°C acima da era pré-industrial). As temperaturas médias globais em 2017 e 2015 foram 1,1°C acima dos níveis pré-industriais. Os dois anos são praticamente indistinguíveis, porque a diferença é inferior a um centésimo de grau, o que é inferior à margem de erro estatística.
“A tendência de temperatura a longo prazo é muito mais importante do que o ranking de anos individuais, e essa tendência é ascendente”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. “Dezessete dos 18 anos mais quentes registrados foram durante este século, e o grau de aquecimento nos últimos três anos tem sido excepcional. O calor do Ártico tem sido especialmente pronunciado e isso terá repercussões profundas e duradouras no nível do mar e nos padrões climáticos em outras partes do mundo “.
A temperatura globalmente média em 2017 foi de cerca de 0,46°C acima da média de longo prazo de 1981-2010 (14,3°C). Esta linha de base de 30 anos é utilizada pelos serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais para avaliar as médias e a variabilidade dos principais parâmetros climáticos, como temperatura, precipitação e vento, que são importantes para os setores sensíveis ao clima, como a gestão da água, energia, agricultura e saúde.
Além do aquecimento global, devido ao aumento dos níveis de gases de efeito estufa na atmosfera, o clima também tem uma variação natural devido a fenômenos como El Niño, que tem uma influência de aquecimento, e La Niña, que tem uma influência refrescante. O forte 2015/2016 El Niño contribuiu para a temperatura recorde em 2016. Em contraste, 2017 começou com um La Niña muito fraco e também terminou com um fraco La Niña.
“As temperaturas contam apenas uma pequena parte da história. O calor em 2017 foi acompanhado por clima extremo em muitos países ao redor do mundo. Os Estados Unidos da América tiveram seu ano mais caro em termos de clima e desastres climáticos, enquanto outros países viram seu desenvolvimento abrandado ou revertido por ciclones tropicais, inundações e secas “, disse o Sr. Taalas.
A OMM emitirá sua declaração completa sobre o estado do clima em 2017 em março. Este relatório fornecerá uma visão abrangente da variabilidade e tendências da temperatura, eventos de alto impacto e indicadores de longo prazo das mudanças climáticas, como o aumento das concentrações de dióxido de carbono, o gelo marinho do Ártico e da Antártida, o aumento do nível do mar e a acidificação dos oceanos. A declaração final incluirá informações enviadas por uma ampla gama de agências das Nações Unidas sobre impactos humanos, socioeconômicos e ambientais como parte de um impulso para fornecer um documento de política mais abrangente, em toda a ONU, para os decisores sobre a interação entre o clima, clima e água e os objetivos globais de desenvolvimento das Nações Unidas.
A OMM usa conjuntos de dados (baseados em dados climatológicos mensais de sites de observação) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA e do Centro Hadley de Met Office do Reino Unido e da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia nos Estados Unidos Reino.
Ele também usa conjuntos de dados de reanálise do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Porte e seu Serviço de Mudanças Climáticas de Copernicus e a Agência Meteorológica do Japão . Este método combina milhões de observações meteorológicas e marinhas, inclusive de satélites, com modelos para produzir uma reanálise completa da atmosfera. A combinação de observações com modelos permite estimar temperaturas a qualquer momento e em qualquer lugar em todo o mundo, mesmo em áreas dispersas de dados, como as regiões polares.

Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma 2017 entre os três anos mais quentes registrados

Notas:

Os três conjuntos de dados de temperatura superficial convencionais são o conjunto de dados NOAAGlobalTemp da NOAA, o conjunto de dados HadCR Center e o Conjunto de dados HadCRUT.4.6.0.0 da Metry Hadley Centre e a unidade de pesquisa climática eo conjunto de dados GISTEMP da NASA GISS. Eles usam medidas da temperatura do ar sobre a temperatura da terra e da água do mar sobre os oceanos para estimar as anomalias de temperatura ao redor do globo. As reanálises são o ERA-Interim do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas Médias e a JRA-55 da Agência Meteorológica do Japão. Apesar da abordagem muito diferente, as estimativas das temperaturas médias globais produzidas por essas reanálises estão de acordo com os conjuntos de dados convencionais da temperatura da superfície
A OMM agora usa 1981-2010 como base para calcular as variações de temperatura nas escalas de tempo mensais, sazonais e anuais. Isso substitui a linha de base 1961-1990 usada anteriormente. O período 1981-2010 também é recomendado pela OMM para calcular o padrão climático normal para o monitoramento operacional do clima, pois é mais representativo das condições climáticas atuais. Permite um relatório consistente de informações de sistemas de satélite e de reanálise, alguns dos quais não se estendem a 1960, juntamente com conjuntos de dados tradicionais baseados em observações de superfície gerenciadas pelos Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais dos 191 Estados Membros da OMM e territórios. Para temperaturas médias globais, o período 1981-2010 é aproximadamente 0,31 ± 0,02 ° C mais quente que o de 1961-1990. A mudança nas linhas de base não tem influência na análise de tendências.
A OMM usa o período 1880-1900 como período de referência para condições pré-industriais, permitindo que as observações instrumentais iniciais sejam usadas para estimar condições de temperatura pré-industrial.

Informe da Organização Meteorológica Mundial (OMM)*, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/01/2018
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

A ECONOMIA GLOBAL À ESPERA DE OUTRA CRISE

A ECONOMIA GLOBAL À ESPERA DE OUTRA CRISE

Sob aparente calmaria, ressurgem condições para nova tempestade: cresce o endividamento e os fluxos de capital são mais voláteis que nunca. Nova onda atingiria em cheio países “em desenvolvimento”.
O artigo é de Martin Khor, diretor executivo do South Centre, uma organização intergovernamental de países em desenvolvimento, com sede em Genebra, publicado por South Centre e reproduzido por Outras Palavras, 19-12-2017. A tradução é de Mauro Lopes.

Eis o artigo.

crise financeira asiática começou há 20 anos, enquanto a crise financeira global e a recessão estouraram nove anos atrás, em 2008. Quando uma nova crise financeira globalsobrevier, os países em desenvolvimento serão ainda mais prejudicados do que na última, pois tornaram-se menos resistentes e mais vulneráveis. Eles precisam, portanto, se preparar para o que inevitavelmente virá.
O debate agora é sobre quando a nova crise explodirá. A maioria dos economistas e comentaristas, entretanto, não raciocina nesses termos; para eles, estamos em meio a uma recuperação econômica, apesar de reconhecidamente fraca, nas economias desenvolvidas.
Na superfície, a atual situação parece bem boa. O mercado de ações dos EUA continua acumulando altas e o chefe do FED (Federal Reserve), o Banco Central americano, afirmou recentemente que a economia dos EUA é robusta e o nível de crescimento do emprego é muito bom.
Outro dado apontado por eles: houve uma recuperação dos fluxos de capital estrangeiro para as economias emergentes no primeiro semestre de 2017, após dois anos de saídas.
Na última cúpula do G20, em Hamburgo, de 7 a 8 julho, seus líderes concentraram-se nas mudanças climáticas, comércio e desentendimentos com os Estados Unidos e pareceram complacentes com a condição econômica do mundo; eles não se preocuparam com nenhuma crise iminente.
Mas, abaixo da superfície calma, as águas estão fervendo e se agitando. Como Shakespeare escreveu em Hamlet, “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Ainda é difícil prever se a crise estourará em breve ou teremos o prolongamento desta “ferveção”; mas o fato é que a economia mundial está em apuros.
Em meio à fraca recuperação da economia global, muitos riscos sérios permanecem, escreveu em 5 de julho Martin Wolf, o principal comentarista financeiro do Financial Times:
“O risco mais provável é um colapso na cooperação global, talvez até mesmo um surto de conflitos”, escreveu. “Isso destruiria a estabilidade da economia mundial da qual todos dependem …”
Ainda segundo Wolf:
Nós, nos países que concentram a rende mundial, permitimos que o sistema financeiro desestabilizasse nossas economias. Em seguida, recusamos o recurso ao estímulo fiscal e monetário para sair rapidamente do mal-estar econômico pós-crise.
Quando uma nova crise financeira global explodir, os países em desenvolvimento serão mais prejudicados do que na última crise, pois se tornaram menos resistentes e mais vulneráveis. Eles precisam, portanto, se preparar para não se surpreenderem.
Nós falhamos e não conseguimos dar respostas às discrepâncias entre as diferentes economias, melhor e pior sucedidas. Isso foi um enorme erro. Agora, na medida em que as economias se recuperam, enfrentamos novos desafios: evitar a explosão da economia mundial, garantindo um crescimento compartilhado e sustentável.
Infelizmente, parece que falharemos neste conjunto de desafios.
Uma análise abrangente e aprofundada da situação econômica global e da forma como afeta os países em desenvolvimento foi formulada em um artigo recente do economista-chefe do South Centre de Genebra, Yilmaz Akyuz.
Os EUA e a Europa geriram equivocadamente as consequências da crise de 2008 com o uso de políticas que terão efeitos muito adversos na maioria dos países em desenvolvimento, de acordo com o documento A crise financeira e o Sul global: impacto e perspectivas (South Centre Research – Paper 76).
Os países em desenvolvimento passaram pela crise de 2008 sem prejuízos maiores devido a certas condições, que já não existem. De lá para cá, entretanto, surgiram nesses países vulnerabilidades novas e perigosas que os expõem a sérios riscos na próxima crise.
Portanto, escreveu Akyuz, é imperativo que os países em desenvolvimento encarem de frente sua situação precária e atuem para proteger suas economias na medida do possível, para reduzir os efeitos da nova turbulência.
Para Akyuz, a crise pós-2008 transformou-se em uma terceira onda destrutiva para várias economias emergentes depois de ter varrido dos EUA para a Europa. Uma razão central foram as respostas equivocadas dos EUA e da Europa: “Há dois equívocos principais: a relutância em reduzir as dívidas através da reestruturação ordenada e a ortodoxia fiscal”.
Ainda segundo Akyuz:
Isso resultou em uma dependência excessiva da política monetária, com os bancos centrais entrando em águas inexploradas, lançando mão de taxas de juros zero e até negativas e expansão rápida de liquidez através de grandes aquisições de títulos.
Essas políticas não apenas fracassaram em garantir uma recuperação rápida, mas agravaram o hiato da demanda global, aumentando a desigualdade e a fragilidade financeira global ao produzir um crescimento brutal das dívidas e bolhas especulativas. Elas também geraram surtos deflacionários e desestabilizadores para as economias dos países em desenvolvimento.
Quando surgir uma nova crise, os países em desenvolvimento serão mais atingidos do que em 2008. Sua resiliência aos choques externos está fragilizada devido a três fatores:
Em primeiro lugar, muitas economias dos países em desenvolvimento aprofundaram sua integração ao sistema financeiro internacional, resultando em novas vulnerabilidades e alta exposição a choques externos.
Suas corporações alavancaram suas dívidas desde a crise, chegando a US$ 25 trilhões (95% do total do PIB desses países); e os títulos das dívidas desses países passaram de US$ 500 bilhões em 2008 para US$ 1,25 trilhão em 2016, com incremento nas taxa de juros e risco cambial.
Além disso, a presença estrangeira nos mercados financeiros locais atingiu níveis sem precedentes, aumentando sua susceptibilidade aos ciclos financeiros globais de expansão/contração.
Em segundo lugar, o saldo da balança de transações corrente e as posições líquidas de ativos estrangeiros de muitos países em desenvolvimento deterioraram-se significativamente desde a crise. Na maioria dos países, as reservas estrangeiras recentes advêm de entradas de capital em vez de excedentes comerciais. Este perfil é inadequado para enfrentar grandes saídas de capital.
Em terceiro lugar, os países agora têm opções de política econômica limitadas para responder a eventos adversos do exterior. Seu “espaço fiscal” para uma resposta da anticíclica aos choques deflacionários é muito mais limitado do que em 2009; eles perderam boa parcela da autonomia em política monetária e o controle sobre as taxas de juros, devido à sua profunda integração financeira global; e os regimes de taxa de câmbio flexível não são panaceia diante de choques financeiros.
“A maioria das economias em desenvolvimento está em uma posição frágil semelhante às décadas de 1970 e 1980, quando os booms nos fluxos de capital e os preços das commodities terminaram com uma crise da dívida depois da reviravolta brusca na política monetária dos EUA, custando-lhes uma década no desenvolvimento”, advertiu Akyuz.
Infelizmente, os países Sul não têm sido efetivos na reflexão sobre esses problemas nem na construção de uma ação coletiva.
São necessárias reformas globais para evitar que as potências transfiram os efeitos de suas políticas equivocadas aos países em desenvolvimento; igualmente, mecanismos globais são necessários para prevenir e gerenciar crises financeiras.
Houve muitas propostas de reforma no passado, mas quase nenhuma ação efetiva, devido à oposição dos países desenvolvidos.
“Agora, os riscos são altos demais para que os países em desenvolvimento continuem a deixar a gestão da economia global para uma ou duas grandes potências econômicas e para as instituições multilaterais que controlam”, concluiu Akyuz.
Se esta análise está correta, a crise que começou em 2008 entrará em território mais perigoso devido a novos fatores que atiçam as chamas neste momento.
As causas fundamentais da crise à frente são conhecidas, mas ainda é desconhecido que evento específico irá desencadeá-la e inflamar a nova fase da crise, e quando isso acontecerá.
Os países em desenvolvimento terão de fato uma posição menos robusta para enfrenta-la em comparação com a de 2008, por isso deveria haver uma posição menos complacente agora.
Cada país deve analisar seus próprios pontos fortes e fracos, suas vulnerabilidades a choques externos e preparar ações para mitigar antecipadamente a crise, em vez de esperar passivamente que ela, soterrando sua economia.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

BOMBAS ATÔMICAS "LEVES", A NOVA AMEAÇA DE TRUMP

BOMBAS ATÔMICAS "LEVES", A NOVA AMEAÇA DE TRUMP

GuaraíTem Comercio Local
Pentágono quer banalizar a bomba atômica, construindo uma “pequena”, que tornaria o seu uso menos aterrador. A revelação circula há três dias e ajudou a inspirar o alerta público do Papa Francisco sobre os riscos de conflito atômico.
A reportagem é de Federico Rampini, publicada por La Repubblica, 17-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A primeira versão, publicada no The Huffington Post e citada no jornal La Repubblica, não foi desmentida pelo Pentágono, que se limitou a defini-la como “ainda não decidida”. Agora, uma detalhada antecipação do Wall Street Journalexplica que se trata da “Nuclear Posture Review”, elaborada pelo Departamento de Defesa e que já se encontra sobre a mesa de Donald Trump.
Há um ano, o presidente pedira uma revisão estratégica sobre a adequação do arsenal nuclear, na esperança do seu reforço. Os generais lhe explicam por que e como consideram que devem auxiliá-lo.
As novas armas nucleares “leves” seriam fabricadas em duas versões. Uma poderia ser montada sobre os mísseis Trident fornecidos aos submarinos atômicos. A outra poderia se tornar a cabeça de mísseis Cruise fornecidos à Marinha dos Estados Unidos.
O fato de o novo arsenal estar destinado à Marinha confirma a hipótese de poder usá-lo em cenários de guerras distantes, não para a defesa imediata do território dos Estados Unidos. A natureza das novas armas nucleares é definida como “low-yield”, isto é, de baixo rendimento, apenas porque a comparação é feita com as outras ogivas atômicas (cerca de quatro mil) do arsenal estadunidense: que vão de 100 a 455 kilotons em comparação com os 15 kilotons de Hiroshima.
Mesmo assim, se trataria de bombas atômicas, ou seja, de armas com uma capacidade de destruição enorme em comparação com os explosivos convencionais. A bomba atômica“de bolso”, porém, ofereceria a vantagem de poder justificar o seu uso tático, para um ataque preventivo, sem que isso deva desembocar na Terceira Guerra Mundial. Mais política do que militar, a lógica é a de reduzir as resistências que, depois de Hiroshima e Nagasaki, sempre impediram o conflito nuclear, até nos momentos mais tensos da Guerra Fria. O equilíbrio do terror entre as duas superpotências EUA-URSS mantinha ambas à beira do precipício, por medo da aniquilação mútua.
A hipótese de uma minibomba atômica “tática”, no entanto, não é nova. Ela foi antecipada pelos soviéticos nos “euromísseis”, que anunciavam, nos anos 1970, a possibilidade de um conflito atômico limitado à Europa, portanto, com a possível desvinculação dos Estados Unidos da defesa dos outros países da Otan.
Antes ainda, um uso limitado de bombardeios nucleares foi levantado como hipótese pelo general Douglas MacArthur contra a China de Mao, durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Mas o presidente Truman expulsou MacArthur.
Agora, é novamente em Moscou e em Pequim que se deve procurar a justificativa da virada estadunidense. Antes antes de olhar para a ameaça da Coreia do Norte, o documento do Pentágono lança um alerta sobre o rearmamento nuclear das outras duas superpotências.
Rússia e China, defende o documento entregue a Trump, vem se movendo há anos na direção oposta à da desnuclearização. Vladimir Putin quis desenvolver uma nova geração de mísseis de cruzeiro terra-ar de porte intermediário, que seria, a reedição dos euromísseis: um arsenal estudado para o cenário de um conflito nuclear “limitado”.
Ainda de acordo com o documento do Pentágono, esses mísseis de nova geração violariam o tratado assinado em 1987 por Ronald Reagan e Michail Gorbachev. Ao contrário das novas armas russas, as ogivas nucleares “de baixa intensidade” que são propostas pelo Pentágono não violariam os tratados existentes, precisamente por serem instaladas em navios e submarinos. A fabricação dessas novas bombas, se Trump der o sinal verde, demoraria dois anos. A decisão do presidente está prevista para o fim de janeiro.
O anúncio da reviravolta ocorre no pano de fundo de uma crise aberta com a Coreia do Norte. A “hipótese MacArthur” será reproposta? Foi confirmado várias vezes que o Pentágono faz simulações sobre possíveis ataques militares contra Pyongyang, para atacar os seus arsenais nucleares para fins preventivos, já que agora os mísseis norte-coreanos podem alcançar os Estados Unidos.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DE GETÚLIO VARGAS AOS DIAS ATUAS.

Como o Brasil caiu à Série B da economia global e nunca mais voltou ?


Portaljipa
“O Brasil dos Meirelles & Cia. engana a torcida com as reformas da Ponte para o Passado e com a “abertura da economia”, apontadas como critérios de classificação do País para disputar a Série A do torneio global. Os “aberturistas da velha matriz” expulsam o investimento nacional e estrangeiro da manufatura e lançam os Canarinhos na Segunda Divisão. Conseguem duas proezas: o ajuste que desajusta e a integração que desintegra”, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, publicado por CartaCapital, 08-01-2018.
Segundo ele, “a experiência chinesa combina o máximo de competição (a utilização do mercado como instrumento de desenvolvimento) e o máximo de controle. Entenderam perfeitamente que as políticas liberais recomendadas pelo Consenso de Washingtonnão deveriam ser “copiadas” pelos países emergentes”.

Eis o artigo.

Quem vai prover os anseios dessa massa por emprego e consumo?
O debate brasileiro sobre o desenvolvimento está amesquinhado nos escaninhos das políticas econômicas de curto prazo.
Sofrem prejuízo as investigações que tomam como guia a “dinâmica das estruturas”, ou seja, as transformações financeiras, tecnológicas, patrimoniais e espaciais determinadas pela interação entre os movimentos da economia internacional e as estratégias nacionais de “inserção” das regiões periféricas.
Um olhar para o passado pode estimular a compreensão do presente e, talvez, a imaginação dos futuros.

O passado futuro

No Brasil dos anos 30 do século passado, o governo de Getúlio Vargas reagiu à derrocada dos preços do café, causada pela Grande Depressão, com políticas de defesa da economia nacional: a compra dos estoques excedentes e a moratória para as dívidas dos cafeicultores, entre outras. Essas medidas e a desorganização do mercado mundial, provocada pela Depressão e depois pela Guerra, ensejaram um forte impulso à industrialização do País.
O segundo conflito mundial ampliou as oportunidades de crescimento da indústria de bens de consumo não duráveis (têxteis, calçados, alimentos e bebidas) e de alguns insumos processados, como óleos e graxas vegetais e ferro-gusa.
Esses setores cresceram rapidamente não só para suprir a demanda doméstica, mas também para atender às exportações. Ainda durante a Guerra, o presidente Vargasnegociou com os norte-americanos a construção da Siderúrgica de Volta Redonda. Esse empreendimento, crucial para as etapas subsequentes da industrialização, entrou em operação em 1946.
Nos países periféricos, predominantemente exportadores de produtos primários, acentuaram-se os movimentos em prol do desenvolvimento da indústria.
industrialização era vista como a única resposta adequada aos inconvenientes da dependência da demanda externa. A renda nacional dependia da exportação de produtos sujeitos à tendência secular de queda de preços e flutuações cíclicas da demanda.
economia brasileira havia mudado e evoluído entre 1930 e 1945. A velha economia primário-exportadora deixou uma herança de deficiências na infraestrutura (energia elétrica, petróleo, transportes, comunicações), nas desigualdades regionais e na péssima distribuição de renda.
Eleito em 1950, Vargas lançou no ano seguinte o Plano de Eletrificação, criou o BNDE em 1952 e a Petrobras em 1953.
O avanço da industrialização só poderia ocorrer com a modernização dos setores existentes e a constituição dos departamentos industriais que produzem equipamentos, componentes, insumos pesados e bens duráveis.
Vargas cometeu suicídio em agosto de 1954. As eleições de 1955 transcorreram num ambiente turbulento. As forças que o levaram ao suicídio no ano anterior tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito em 1955. O golpe foi frustrado pela reação pronta do general Henrique Duffles Teixeira Lott.
JK tomou posse em 1956 e seu mandato foi ameaçado por novas tentativas de golpes militares. Prometeu avançar 50 anos em 5. Pode-se dizer que cumpriu a promessa. Governou sob a orientação do Plano de Metas elaborado a partir de dois estudos: o da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos e o da Comissão Mista Cepal-BNDE – Esboço de um Programa de Desenvolvimento para a Economia Brasileira.
Plano de Metas contemplava cinco prioridades: energia, transportes, alimentação, indústrias de base e educação. O projeto de democratização da educação estava apoiado nos trabalhos do pioneiro Anísio Teixeira.
O governo acelerou os gastos na infraestrutura. A construção de Brasília e a abertura de estradas, como a Belém-Brasília, integravam o projeto de interiorização do desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, foram constituídos os grupos executivos, coordenados pelo conselho nacional de desenvolvimento, formados por empresários do setor privado e técnicos do BNDE, com o propósito de coordenar os programas de investimento e a divisão do trabalho entre o capital estrangeiro e o nacional nas diversas áreas.
Essa era a tarefa do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), do Grupo Executivo da Construção Naval (Geicon), do Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes (Geipot) e do Grupo Executivo da Indústria Mecânica Pesada (Geimap). Em 1958, foi criada a Sudene, com o propósito de promover o desenvolvimento do Nordeste.
Plano de Metas articulou, portanto, as ações do governo, do setor privado nacional e do capital produtivo internacional, que experimentava uma forte expansão. A grande empresa norte-americana movimentava-se dos Estados Unidos para a Europa em reconstrução.
As empresas europeias, em maior número, e as norte-americanas transladavam suas filiais dessas regiões para os países em desenvolvimento dotados de estruturas produtivas mais avançadas e que apresentavam taxas de crescimento mais elevadas. O Brasil, entre 1956 e 1960, cresceu, em média, 7% ao ano e tornou-se a economia mais internacionalizada do então chamado Terceiro Mundo.
Muito ao contrário do que pregam os caipiras-cosmopolitas, aquela malta que circula pelo mundo sem entender nada do que acontece, o projeto juscelinista integrou a economia brasileira ao vigoroso movimento de internacionalização do capitalismo do pós-Guerra.
Ao longo do período 1930-1980, o Estado brasileiro constituiu formas superiores de organização capitalista, consubstanciadas em um sistema financeiro público e na coordenação entre empresas estatais, privadas nacionais e estrangeiras.
O setor produtivo estatal, em um país periférico e de industrialização tardia, funcionava como um provedor de externalidades positivas para o setor privado:
(1) O investimento público era o componente “autônomo” da demanda efetiva (sobretudo nas áreas de energia e transportes) e corria à frente da demanda corrente;
(2) as empresas do governo ofereciam insumos generalizados (energia, aço, não ferrosos) em condições e preços adequados; e
(3) começavam a se constituir, ainda de forma incipiente, em centros de inovação tecnológica.

O futuro passado

No início dos anos 1990, os países vitimados pela crise da dívida externa da década anterior foram submetidos aos aconselhamentos do Consenso de Washington.
As palavras de ordem do “novo consenso” eram abertura comercial, liberalização das contas de capital, desregulamentação e “descompressão” dos sistemas financeiros domésticos, com a liberalização das taxas de juro, reforma do Estado, incluída a privatização de empresas públicas e da seguridade social, abandono das políticas “intervencionistas” de fomento às exportações, à indústria e à agricultura.
As políticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lançadas no rol dos pecados sem remissão.
Não é surpreendente que as interpretações liberais invertam as relações de determinação entre a derrocada fiscal dos anos 1980 e a crise do balanço de pagamentos. Foi o colapso do endividamento externo “neoliberal” dos anos 70 que desatou a desordem fiscal e monetária dos anos 80, a década perdida.
O financiamento em moeda estrangeira dos projetos listados no II PND engendrou a fragilização financeira das empresas públicas e privadas. Constrangidas pelas ilusões do dinheiro estrangeiro fácil e barato, as empresas estatais enfiaram-se no descasamento de moedas.
Mais do que as privadas, foram abalroadas pelo choque de juros desatado em Washington em 1979. O início dos anos 80 foi marcado por uma abrangente socialização dos prejuízos mediante a estatização das dívidas, as maxidesvalorizações cambiais, a aceleração da inflação acompanhada do “aperfeiçoamento” da indexação financeira, matriz da deformação da riqueza privada, concentrada na dívida pública e protegida pelas taxas de juro pós-fixadas.
A desorganização financeira e fiscal que se seguiu à crise da dívida externa forneceu combustível para alastrar as chamas da purificação mercadista. Ainda hoje, os economistas do consenso liberal-conservador apontam o “estatismo” do II PND como responsável pela crise da dívida externa. Calam-se e tratam de esconder os erros crassos cometidos em nome da abertura financeira e de seus “mercados eficientes”.
opus magnum das concepções que se lambuzam na crítica do desenvolvimentismo foi o “desmanche” da estrutura produtiva criada ao longo das cinco décadas inauguradas nos anos 30 do século XX. Depois de liderar, até meados dos anos 70, a “perseguição” industrial entre os países ditos periféricos, com forte atração de investimento direto na manufatura, o Brasil caiu para a Série B do torneio global das economias “emergentes”.
A vitória do Plano Real sobre a hiperinflação não impediu que a execução do plano cobrasse uma conta salgada. Insufladas pelo primitivismo das “aberturas” comercial e financeira dos anos 90, a taxa Selic real média de 24% ao ano e a valorização cambial ministraram extrema-unção à indústria brasileira. A infeliz agoniza.
Brasil dos Meirelles & Cia. engana a torcida com as reformas da Ponte para o Passado e com a “abertura da economia”, apontadas como critérios de classificação do País para disputar a Série A do torneio global.
Os “aberturistas da velha matriz” expulsam o investimento nacional e estrangeiro da manufatura e lançam os Canarinhos na Segunda Divisão. Conseguem duas proezas: o ajuste que desajusta e a integração que desintegra.

O futuro do presente

Em seu livro sobre o desenvolvimento recente dos países asiáticos, o professor da Escola Americana de Paris Philip S. Golubavalia as diferenças entre os países “emergentes” na era da globalização.
“Graças a um Estado desenvolvimentista forte, a China realiza seu projeto mais do que centenário de modernização. Diferentemente dos países mais vulneráveis que aprisionaram os poderes públicos na função de agentes do ajustamento da economia nacional às exigências da economia mundial, o Estado chinês soube garantir sua autonomia – entre altos e baixos, administrando as consequências sociais e ambientais do crescimento.”
A desdita dos fracassados foi agravada pela escalada chinesa e seu projeto nacional de integração à economia global.
A integração chinesa à economia mundial em transformação, o sinoaberturismo, desrespeitou os cânones das novas e ridículas teorias macroeconômicas ensinadas nas universidades norte-americanas e transportadas para o Brasil pelos vira-latas que hoje infestam os mercados financeiros e a academia.
Apoiados no investimento direto estrangeiro, em suas empresas estatais, em seus bancos idem e no câmbio administrado (argh!), os chineses sustentam taxas elevadas de investimento. Em três décadas, alcançaram o almejado adensamento das cadeias produtivas, também articuladas no espaço interasiático. O feito resultou na redistribuição do valor agregado manufatureiro global para o colo do Império do Meio e de seus vizinhos.
A experiência chinesa combina o máximo de competição (a utilização do mercado como instrumento de desenvolvimento) e o máximo de controle. Entenderam perfeitamente que as políticas liberais recomendadas pelo Consenso de Washington não deveriam ser “copiadas” pelos países emergentes.
Assim, no mesmo compasso em que abriam a economia para o investimento estrangeiro, os chineses dedicaram-se a manter sob controle o sistema de crédito, modernizaram e fortaleceram as empresas estatais e sustentaram a política de subvalorizarão do câmbio. Os bancos públicos foram incumbidos de dirigir e facilitar o investimento produtivo e em infraestrutura.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos