quarta-feira, 24 de maio de 2017

RECICLAGEM : VOCÊ CONHECE, MAS VOCÊ PRATICA ?

Reciclagem: você conhece, mas você pratica? artigo de Fabrício Previatto Gimenes

[EcoDebate] A reciclagem é uma das práticas sustentáveis mais conhecidas pelas pessoas. Em algum momento de sua vida todos já tiveram contato com o termo: na escola, nas embalagens dos seus produtos, no jornal… Mas será que quem conhece também pratica? O Brasil é líder mundial em reciclagem de alumínio, passando de 98%, mas não recicla nem 10% do total dos resíduos que gera. Nós já temos o potencial para alcançar sucesso nessa prática, mas como transformar em realidade?
O que é reciclagem?
Todo produto é feito de algum tipo de material, ou uma combinação de materiais. Nos processos de fabricação os materiais são extraídos e transformados até que o produto chegue a sua forma final, que é utilizada por nós. Quando esses produtos chegam ao final de sua vida útil é preciso encontrar um jeito de destinar os resíduos. A reciclagem faz com que os materiais presentes em um produto sejam retransformados até poderem ser reutilizados na fabricação de novos produtos.
Além de diminuir o impacto ambiental de empresas, instituições e casas, a reciclagem também reduz os gastos com extração das matérias-primas e o impacto ambiental associado. Ela abre oportunidades para que o volume de lixo gerado por nós seja reduzido, diminui a pegada de carbono de nossas atividades e gera renda e trabalho para milhares de pessoas. Se não bastassem os benefícios ambientais, econômicos e sociais que a reciclagem oferece, ela também é simples de ser apoiada.
Conhecer e praticar
As possibilidades da reciclagem cresceram muito nas duas últimas décadas e dependem principalmente da nossa responsabilidade na hora de descartar. Vários são os materiais que podem ser reciclados: metais (alumínio, cobre, aço, níquel, etc), plásticos, papelão, isopor, etc. Quase todos os materiais do cotidiano empresarial e doméstico podem ser reciclados hoje em dia, mas então por que os índices de reciclagem são baixos?
Caminho da reciclagem
O sucesso da reciclagem depende de um conjunto de esforços que envolve todos nós ao longo do processo e um dos principais é separação. Quando jogamos fora algum material, a chance dele ser reciclado depende da capacidade de fazer com que ele chegue até o local certo. Os sistemas de coleta de resíduos sólidos urbanos de diversos municípios brasileiros já possuem serviço de coleta seletiva. Estes sistemas não possuem capacidade suficiente para abranger todas as localidades, por isso também existem as cooperativas de catadores. Mas o lixo reciclável só atinge o resultado desejado se todas as partes envolvidas trabalharem corretamente:
O caminho da reciclagem
O caminho da reciclagem 
O papel da indústria e empresas
No conjunto de esforços que faz com que a reciclagem torne-se uma realidade a indústria tem um papel muito importante. Ela é responsável por selecionar quais materiais serão utilizados na produção dos produtos que consumimos. A escolha dos materiais e produtos recicláveis diminui o impacto ambiental das empresas e da sociedade. Mas vai além disso, a indústria também é responsável por abrir portas para a reentrada dos materiais depois de reciclados.
O papel do consumidor
Quando você escolhe um produto na prateleira do supermercado, você pensa em como ele vai ser jogado fora depois do uso? Você olha a embalagem do produto e procura informação sobre se é possível reciclar? Quando nós descartamos nosso lixo todo misturado ele vai parar num aterro sanitário, onde o lixo é simplesmente enterrado sem reaproveitamento. É função de cada pessoa ter consciência de como é importante separar os materiais antes do descarte, somente assim a reciclagem pode funcionar. Você já parou para pensar no futuro que seus filhos terão que enfrentar se o lixo não receber o tratamento correto? Não feche o caminho da reciclagem, pelo contrário, abra espaço para que ele possa ir mais longe.
O papel dos governos
A legislação brasileira atribui responsabilidade compartilhada em relação aos resíduos gerados: governo, consumidor, produtor, vendedor… Porém é de responsabilidade específica dos governos municipais, estaduais e federal dar condições para que a gestão de resíduos funcione. Uma das partes mais importante da gestão de resíduos é a coleta seletiva e a reciclagem. As comunidades, as cooperativas, as empresas e todos os cidadãos devem cobrar de seus municípios a organização dessa estrutura.
O papel dos recicladores
O perfil dos recicladores é variado. Existem cooperativas, empresas pequenas, empresas de médio porte e até mesmo empresas internacionais. Cada um dos perfis de reciclador terá necessidades específicas para garantir o funcionamento do negócio e gerar o impacto positivo que a reciclagem oferece. O desafio é criar condições para que o negócio seja realmente viável em vários níveis. Gerar valor positivo dentro da cadeia de suprimentos. Criar processos que melhorem a qualidade do material reciclado e o volume produzido. Aumentar a capacidade de recebimento da coleta seletiva. Esses e outros desafios precisam ser vencidos para que a reciclagem torne-se uma realidade mais abrangente do que é hoje. As últimas pesquisas do Governo Federal apontam que o Brasil não passa de 10% de reciclagem do total de lixo produzido.
A reciclagem em números
Para compreender bem o panorama brasileiro é preciso comparar nossos números com o panorama internacional. Além disso, é preciso que a reciclagem seja capaz de gerar benefícios de curto e longo prazo para a sociedade. Sem esses benefícios ela perde força e empresas e pessoas não investem no processo. Veja a seguir alguns números interessantes sobre a reciclagem no Brasil e no mundo.
Estatísticas de reciclagem no Brasil e no mundo
Estatísticas de reciclagem no Brasil e no mundo
Buscar o horizonte desejado
O Brasil ainda tem um percurso longo para percorrer em busca dos níveis internacionais de reciclagem do total de lixo, mas existe muito potencial positivo. A Política Nacional de Resíduos Sólidos foi uma conquista significativa para assinalar nosso compromisso com a sustentabilidade como nação. Agora é hora de transformar as diretrizes da lei em realidade. Existem empresas brasileiras trabalhando e investindo para que a reciclagem alcance os níveis que precisamos. Faça sua parte e comece dentro da sua empresa, dentro da sua escola, dentro da sua casa. O trabalho depende do esforço coletivo e organizado de todos, pois é uma necessidade de todos.
Fabrício Previatto Gimenes cursa o 5º ano da graduação em Engenharia de Produção, Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB – UNESP).
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/05/2017

AS CONSEQUÊNCIAS CAUSADAS PELA REDUÇÃO DE ÁREAS NATURAIS NO BRASIL.

10 impactos causados pela redução de áreas naturais no Brasil, por Carlos Nobre, Carlos Eduardo Young, Fábio Olmos e Marcelo Dantas


Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Recentemente, o governo federal propôs a redução de mais de 1 milhão de hectares da área de unidades de conservação (UCs), que inclui áreas do Pará, na Amazônia, e de outras regiões do Brasil.
A mudança, que já foi aprovada por uma comissão mista de deputados e senadores, acontece por meio de uma ferramenta ágil e destinada apenas a assuntos urgentes: as medidas provisórias. No último dia 16 de maio, a MP 756 foi aprovada pela Câmara dos Deputados, que autoriza a mudança de categoria de parques nacionais e de florestas nacionais e os transforma em áreas de preservação ambiental (APAs), cujas restrições para exploração são menores.
A proposta atinge uma região que sofre com o desmatamento há anos. Apesar da redução do índice histórico de desmatamentos na Amazônia, em 2016 ainda foram registrados 8 mil km² pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – área equivalente a quase uma vez e meia o Distrito Federal, que tem 5,7 mil km². As consequências dessas ações não afetam somente quem vive perto das florestas, mas abrange todo o País, de Norte a Sul, sem contar o impacto causado na fauna, na flora e nos serviços ambientais daquelas áreas reduzidas pela proposta.
Confira dez fatos e impactos que a redução de florestas causa para o meio ambiente e para a população:
1. A falta ou excesso de chuva no Brasil é influenciada pela Amazônia
É na Amazônia que são formados os rios aéreos ou voadores, que são massas de ar carregadas de vapor d’água. A floresta amazônica atrai a umidade evaporada pelo oceano e cria correntes de ar que transportam essa umidade em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. De acordo com o biólogo e diretor da Permian Brasil, Fábio Olmos, existem diversos estudos que mostram que a segurança hídrica nacional depende da Amazônia. “Tanto os centros urbanos como o campo, a região mais povoada do País ou a mais remota, dependem dos serviços ambientais fornecidos pela floresta e outros ecossistemas naturais. Isso sem nem mencionar a questão das emissões de gases de efeito estufa associadas ao desmatamento, que intensificam a mudança global do clima”, afirma ele, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
2. Conservação da natureza não está na lista da maioria dos governantes
Parece ser uma triste verdade. As recentes mudanças anunciadas pelo governo brasileiro demonstram que as regras atendem aos interesses de poucos e não a vontade de muitos. No Pará, os limites do Parque Nacional do Rio Novo, Parque Nacional do Jamanxim e da Área de Proteção Ambiental do Tapajós correm sérios riscos de serem alterados. Essas últimas mudanças aconteceram por meio das Medidas Provisórias 756 (aprovada pela Câmara dos Deputados na terça, 16 de maio) e 758, que, além do Pará, também propõe alteração na área do Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina.
3. Não estamos reduzindo o desmatamento
Por cerca de 10 anos, até a celebração do Acordo de Paris na Conferência de dezembro de 2015 (COP21), a redução de desmatamentos na Amazônia era destaque global ano após ano: a taxa anual foi reduzida em 83% e oscilou entre 5 a 6 mil km²/ano até 2015. Em 2016, no entanto, os desmatamentos medidos pelo sistema PRODES do INPE registraram quase 8 mil km² na região. Entre as causas, pode-se apontar tanto as reduções orçamentárias dos órgãos ambientais reguladores, como mudanças do Código Florestal Brasileiro, em 2012, que anistiaram desmatamentos ilegais do passado, encorajando o descumprimento da lei.
4. O Brasil é um país que não cumpre acordos internacionais
O Acordo de Paris foi assinado em 2015 por dezenas de países que se comprometeram a parar e reduzir o aquecimento global e suas consequências. O ideal é que as nações signatárias promovam mudanças para que o aumento não supere 1,5°C. O Brasil foi protagonista nas negociações que concretizaram o pacto e se comprometeu a reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa até 2025, 43% até 2030 em relação às emissões de 2005, e zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Ou seja, até lá, o Brasil está dizendo que continuará tendo desmatamento ilegal na Amazônia; e, quanto aos demais Biomas, o compromisso brasileiro não traz metas específicas. De acordo com o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, com as constantes reduções de áreas protegidas e o aumento do desmatamento, dificilmente chegaremos à meta de desmatamento zero, que já era desafiadora. “A relação entre o desmatamento, a floresta e o clima é real e nos afeta diariamente. Não podemos perder o trem da história, pois o custo será o futuro de nossa e das próximas gerações”, analisa Nobre.
5. O clima do planeta está esquentando
A temperatura média do planeta está aumentando e isso é perigoso! Dados divulgados pela Nasa, agência espacial americana, e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), em janeiro deste ano, confirmam que a temperatura do planeta bateu recordes pelo terceiro ano consecutivo. Em 2016, o planeta estava 0,99 grau Celsius mais quente que a média do século XX. Há grande consenso científico de que a maior parte do aquecimento observado nos últimos 60 anos é devido ao aumento da concentração de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2), decorrente da emissão de combustíveis fósseis, do desmatamento, entre outros. Quanto menos áreas naturais tivermos, pior ficará a situação.
6. Quando uma floresta é derrubada, as outras regiões também são afetadas
Além do impacto no regime de chuvas, as florestas também atuam como reguladores do clima, proteção de rios e das espécies que vivem nelas, entre muitos outros fatores. O recente surto de febre amarela que alarmou o Brasil é consequência do desmatamento da Mata Atlântica, por exemplo.
7. Pecuária é uma das atividades mais poluentes
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançou o relatório Estado das Florestas do Mundo 2016 e concluiu que, no Brasil, mais de 80% do desmatamento está ligado à conversão de terras em terrenos de pasto. Além disso, o relatório analítico do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) do Observatório do Clima mostra que as emissões diretas e indiretas do agronegócio representam dois terços das emissões brasileiras de gases de efeito estufa.
8. Medidas provisórias deveriam ser usadas com mais cautela
Na hora de mudar ou propor normas, o governo tem três caminhos possíveis: as medidas provisórias (MPs), os decretos e os projetos de lei. Os decretos podem ser feitos apenas pelo presidente, governadores e prefeitos para determinadas leis. Os projetos de lei são a maneira mais tradicional e “certa” de se propor uma mudança, mas também são mais lentas e burocráticas. É aí que surgem as MPs, que devem ser usadas apenas em casos relevantes e urgentes e quem define isso é o presidente da República. Uma medida precisa ser aprovada em no máximo 120 dias e tem força de lei imediata. Usar uma MP para alterar a área de uma unidade de conservação, por exemplo, é uma distorção grave da lei, de acordo com o advogado especializado em causas ambientais, Marcelo Dantas, que é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. “Se as alterações sugeridas na Amazônia são urgentes a ponto de pedir uma medida provisória, certamente elas atendem a interesses específicos e que divergem da opinião da população. Essa manobra foi feita para driblar a burocracia e reduzir a resistência na aprovação”, explica.
9. Florestas e áreas de preservação podem gerar emprego e renda
Acreditar que desmatamento e danos ambientais estão ligados ao desenvolvimento é um pensamento, no mínimo, atrasado. Carlos Eduardo Young, economista e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, defende o conceito de economia verde: uma prática que estimula atividades associadas à preservação ambiental, uso eficiente de recursos e inclusão social. “As atividades ‘verdes’ tendem a ser mais intensivas em mão de obra e em produtos manufaturados com maior conteúdo de inovação”, explica.
10. O desmatamento das áreas naturais induz a mais violência no campo
Há no Brasil uma tradição de que, se for estabelecido um uso produtivo da terra, é possível ter direito à sua posse. Nesse ponto de vista, a taxa de desmatamento tende a aumentar e dar a oportunidade para que grileiros reclamem para si o direito à posse; e o resultado: violência. De acordo com o artigo “Direitos de Propriedade, Desmatamento e Violência: Problemas para o Desenvolvimento da Amazônia”, publicado em 2014, nos municípios onde há mais desmatamento, a taxa de homicídios também é maior. Para o pesquisador Carlos Eduardo Young, que é membro da Rede de Especialistas e um dos autores do artigo, “há inúmeros estudos que apontam como o processo de desmatamento é acompanhado por atos de violência, que vão do conflito entre posseiros e grileiros, até a expulsão dos antigos moradores da floresta. Casos, ainda, que podem resultar em homicídio”, explica.
*Carlos Nobre, Carlos Eduardo Young, Fábio Olmos e Marcelo Dantas fazem parte da Rede de Especialistas de Conservação da Natureza, uma reunião de profissionais, de referência nacional e internacional, que atuam em áreas relacionadas à proteção da biodiversidade e assuntos correlatos, com o objetivo de estimular a divulgação de posicionamentos em defesa da conservação da natureza brasileira. A Rede foi constituída em 2014, por iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/05/2017

ILHA DE PÁSCOA AMEAÇADA.

O segundo colapso da ilha de Páscoa, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A Ilha de Páscoa é o exemplo mais claro de uma sociedade que se autodestruiu
ao explorar demais os próprios recursos. É um exemplo de ecocídio”
Jared Diamond
as estátuas da ilha da Páscoa
[EcoDebate] A Ilha de Páscoa, ou Rapa Nui, é uma ilha da Polinésia oriental, localizada no sul do Oceano Pacífico e está situada a 3.700 km de distância da costa do Chile e, atualmente, constitui a província chilena de Ilha de Páscoa. A colonização da Ilha de Páscoa ocorreu em função das viagens dos povos vindos do continente asiático e das ilhas da Polinésia Ocidental.
Na modernidade, a Ilha de Páscoa foi (re)descoberta num domingo de Páscoa de 1722, pelo navegador holandês Jacob Roggeveen que ficou impressionado com as gigantescas estátuas de pedra (chamadas Moais), espalhadas pela ilha e pela total falta de vegetação. Segundo os exploradores europeus, as estátuas e a desertificação da ilha pareciam testemunhas de uma sociedade em colapso.
De acordo com a histografia, no passado, os primeiros habitantes da ilha de Rapa Nui formavam uma sociedade rica e próspera que entrou em colapso em consequência da degradação ambiental. Segundo essa teoria, um pequeno grupo de colonizadores da Polinésia teria chegado entre os séculos IX e X. Trezentos anos depois, o aumento populacional acelerado e a obsessão em construir moais levaram a uma pressão cada vez maior no ambiente. No final do século XVII, os rapanui haviam desmatado a ilha, o que resultou em guerras, fome e colapso cultural.
Essa versão é defendida pelo geógrafo Jared Diamond que usou os rapanui como parábola sobre os perigos da destruição ambiental. Para Diamond, em apenas alguns séculos, os habitantes da Ilha de Páscoa liquidaram suas florestas, levaram suas plantas e animais à extinção, e viram sua complexa sociedade rumar para o caos e o canibalismo. No livro, Colapso, publicado em 2005, Diamond descreveu Rapa Nui como “o exemplo mais claro de uma sociedade que se autodestruiu ao explorar demais os próprios recursos”.
Entretanto, esta narrativa é contestada por outros estudiosos, Terry L. Hunt, que considera que o colapso Rapa Nui foi provocado ou acelerado pela chegada dos Europeus em 1722. Para ele, doenças trazidas de fora, conflitos com invasores europeus e escravidão seguiram-se durante os 150 anos seguintes, e essas foram as principais causas do colapso. No começo da década de 1860, mais de mil rapanui foram levados da ilha como escravos e, no final da década seguinte, o número de habitantes nativos chegava somente a cerca de 100. Em 1888, a ilha foi anexada ao Chile.
Qualquer que seja a explicação, o fato é que houve degradação ambiental da ilha e é impossível manter uma civilização (e suas obras de arte como os Moais) sem haver uma base ambiental que sustente a vida humana e a biodiversidade.
A Ilha de Páscoa é um micro exemplo de auto desastre. O Planeta pode repetir o mesmo desastre ao nível macro. Nos últimos 250 anos, o crescimento do industrialismo e da Pegada Ecológica atingiu níveis insustentáveis. Além da perda de biodiversidade e da degradação dos ecossistemas, a emissão de gases de efeito estufa (GEE) estão acelerando o aquecimento global e provocando o degelo dos polos e dos glaciares. Isto já está elevando o nível dos oceanos e a perspectiva que este aumento se acelere assim como os efeitos climáticos extremos.
De acordo com relatório elaborado por diversos cientistas e divulgado em junho de 2016 pela Organização das Nações Unidas (ONU), 31 patrimônios culturais da humanidade, em 29 países, estão ameaçados pelas mudanças climáticas e a elevação do nível do mar. O estudo mostra que obras icônicas, como os Moais da Ilha de Páscoa, podem ser destruídos devido a problemas causados pelas alterações no clima.
Isto se torna mais graves depois das novas descobertas. Reportagem de André Oliveira, na Revista Galileu (12/06/2015), retrata os achados de arqueólogos que desenterraram, em 2012, o torso de algumas estátuas, mostrando que os moais não apenas têm corpo, como também são tatuados. Os pesquisadores acreditam que padrões crescentes nas tatuagens podem representar canoas do povo Rapa Nui.
estátua da ilha da Páscoa
O risco do caos climático que ameaça patrimônios ambientais como a Grande Barreira de Corais, na Austrália, e o Atol das Rocas, no Brasil, já vinha sendo enfatizado há tempos por entidades ligadas ao assunto. Mas o novo relatório da ONU lista também monumentos criados pelo ser humano, de extrema importância cultural e, obviamente, turística. O perigo é que todo o Planeta se torne, em termos macro territoriais, uma grande Ilha de Páscoa.
No plano micro, a ilha de Páscoa sofre a erosão costeira causada por chuvas que se tornarão cada vez mais frequentes e o aumento do nível das águas no Oceano Pacífico podem fazer com que os moais se percam no mar. Seria o segundo colapso ambiental da cultura Rapa Nui. Um prenúncio de um colapso que pode ser global.
Referência:
Terry L. Hunt. O colapso dos rapanui, SCIAM, 2006
http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/o_colapso_dos_rapanui.html
Jared Diamond – Sociedades em Colapso – Legendado Português.
http://www.youtube.com/watch?v=szkKzVM93cQ
André Jorge Oliveira. Fotos revelam que moais da Ilha de Páscoa têm tatuagens. Revista Galileu, 12/06/2015
http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2015/06/fotos-revelam-que-moais-da-ilha-de-pascoa-tem-tatuagens.html
 José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/05/2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

ATIVIDADE SOBRE A CIRCULAÇÃO ATMOSFÉRICA.

Atividade de geografia.

Todos os registros devem ser feitos no caderno, o material para pesquisa são : O livro texto e a internet.

1- Desenhar o planeta Terra colocando:

* as áreas de alta e baixa pressão atmosférica, os nomes dos principais paralelos, as setas mostrando as direções da circulação dos ventos e seus respectivos nomes e os nomes das células na parte externa do desenho.

2- Conceituar :

* ventos

* áreas ciclonais e anticiclonais ( efetuando seu esquema de funcionamento)

* ventos alísios e contra alísios ( construir desenho ilustrativo e explicar a causa da formação de alguns desertos em relação aos ventos contra-alísios )

* corrente de coriolis

* brisa marítima e continental

* clima de monções

* doldrums

* nevoeiro, neblina ou cerração

* orvalho

* geada

* neve

* granizo

* virga

* chuva

Bom trabalho. 

domingo, 14 de maio de 2017

MICO-LEÃO-DOURADO REAPARECE NO RIO.

Mico-leão-dourado reaparece no Rio após mais de um século

Um mico-leão-dourado foi fotografado na Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica, campus avançado para pesquisas em biodiversidade e saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Jacarepaguá. A espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira – estampada na nota de R$ 20 – foi avistada juntamente com um grupo de saguis-de-tufo-branco pelos biólogos Iuri Veríssimo e Monique Medeiros, que trabalham na gestão ambiental e no levantamento da biodiversidade da Estação Biológica da Fiocruz.
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira (foto: Fiocruz Mata Atlântica)
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira (foto: Fiocruz Mata Atlântica)
Segundo o biólogo responsável pela gestão ambiental do Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz Mata Atlântica / Estação Biológica, Ricardo Moratelli, o próximo passo é descobrir a origem desses animais — se são remanescentes de uma população local ou se foram trazidos de outra região e soltos na área. A Estação Biológica da Fiocruz fica adjacente e parcialmente sobreposta ao Parque Estadual da Pedra Branca, que abriga a maior floresta urbana das Américas, segundo cálculos da equipe de pesquisadores, há aproximadamente 50 km2 de florestas de baixada (entre 100–300 m) bem preservadas, que são o habitat preferido do mico-leão-dourado.
Primata da Mata Atlântica
O mico-leão-dourado é uma espécie de primata exclusiva da Mata Atlântica brasileira. Os primeiros naturalistas europeus que visitaram a região do atual estado do Rio de Janeiro, entre os séculos 16 e 19, ficaram encantados com esses primatas e alguns exemplares foram prontamente coletados e enviados para a Europa, sendo formalmente descritos em 1766 pelo celebre naturalista sueco Carolus Linnaeus.
Registros do período colonial até inicio do século 19 indicam que a espécie ocorria ao longo de quase toda faixa litorânea do estado do Rio de Janeiro, incluindo o município do Rio. Devido à rápida perda de habitat ao longo dos séculos 19 e 20, a espécie foi localmente extinta na maior parte de sua área de distribuição. Até a década de 1940, a espécie ainda ocorria em Araruama e Maricá, mas logo depois ficou restrita à uma pequena região na bacia do Rio São João.
Na início da década de 1960, quando restavam cerca de 200 micos, o primatologista e conservacionista Adelmar Coimbra Filho estabeleceu as bases de um programa de salvamento para a espécie. Esse esforço se consolidou em um grande projeto de preservação, proteção e estudo do mico-leão-dourado, que desde 1992 é liderado pela Associação Mico-Leão-Dourado. Hoje, existem cerca de 3.200 micos vivendo livremente, com todas as populações concentradas em alguns poucos municípios do interior do Rio de Janeiro, sendo as maiores nas Reserva de Poço das Antas e Reserva Biológica União.
Fonte: Fiocruz
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017

sábado, 13 de maio de 2017

"NÃO EXISTE DEMOCRACIA ONDE IMPERA A CORRUPÇÃO, A INJUSTIÇA, A MENTIRA E A HIPOCRISIA "

A gestão Dilma-Temer gerou o pior octênio da história brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Não existe democracia onde impera a corrupção, a injustiça, a mentira e a hipocrisia”
Mauro Roberto
taxas anuais de crescimento do PIB
[EcoDebate] O Brasil apodreceu. Este é o título de um artigo do jornalista Clovis Rossi na Folha, em abril de 2017. Ele expressa bem o que tem ocorrido no país nos últimos anos e a descrença que atinge até a grande imprensa. A maioria dos políticos e seus partidos estão envolvidos em algum escândalo de corrupção. Os presidentes das grandes empreiteiras estão na cadeia ou em prisão domiciliar. A Petrobras está quebrada. A Vale atolada no mar de lama que também sufoca os rios e as matas de Minas Gerais e do Espírito Santo. O desemprego bate todos os recordes. Há um esgarçamento do tecido social. As condições ambientais se deterioram. A violência se banaliza. E a economia, no período republicano, nunca este tão ruim. A Nova República já nasceu velha e debilitada e o Brasil perde espaço na economia internacional desde o início dos anos 80.
O Brasil viveu uma década perdida entre 1981 e 1990, quando houve, pela primeira vez na história da República, uma redução da renda per capita em um período decenal. O governo Figueiredo – de triste memória – enterrou o legado de grande crescimento da época áurea da ditadura. Os governos Sarney e Collor deixaram uma herança de hiperinflação, pobreza e desigualdades sociais. Os governos Itamar e FHC (1992-2002) conseguiram estabilizar os preços de bens e serviços depois do Plano Real e até promoveram a volta de um crescimento modesto, mas positivo (do ponto de vista do crescimento do PIB e não das condições ambientais). Houve pequena redução da pobreza e da desigualdade social neste período.
O governo Lula, aproveitando os ventos favoráveis do superciclo das commodities, conseguiu elevar o crescimento do PIB para níveis superiores às décadas de 1980 e 1990, mas bem inferiores do que a década de 1970. A especificidade do governo Lula foi criar expectativas positivas. O período mais saudável ocorreu nos anos de 2004 a 2008, quando houve, num ambiente democrático, o crescimento econômico, a redução da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a redução das dívidas públicas interna e externa, crescentes saldos comerciais, crescentes superávits primários nas contas públicas, aumento das reservas cambiais e maior presença construtiva do Brasil no cenário internacional (na época, escrevi um artigo chamando este período de “quinquênio virtuoso”, Alves, 2009). O lado mais negativo foi o aumento da corrupção e a utilização de truques macroeconômicos, em 2009 e 2010, para turbinar a economia e influenciar os resultados das eleições de 2010. A primeira década do terceiro milênio foi melhor do que a última década do segundo milênio. Mas diversos problemas estruturais vieram à luz na década seguinte, quando o presidencialismo de coalizão mostrou o lado perverso do sistema político brasileiro.
A chapa Dilma-Temer eleita em 2010 e reeleita em 2014 promoveu, considerando tanto os 6 anos já decorridos (sexênio), como os sete anos em curso (septênio) ou os possíveis oitos anos de gestão (2011 a 2018), o pior desempenho para um período de seis, sete ou oito anos (octênio) desde 1901, quando se tem dados confiáveis registrados. O gráfico acima mostra (nas linhas azuis) as taxas anuais de crescimento do PIB no Brasil entre 1901 e 2018, enquanto a média móvel de oito anos (linha vermelha) mostra todos os octênios do período. As séries históricas são do Ipeadata (de 1901 a 1999) e do IBGE (de 2000 a 2016), com as atualizações mais recentes. Para os anos de 2017 e 2018 utilizamos as projeções do FMI (WEO, abril de 2017). O que se conclui é que o Brasil vive a sua mais longa e profunda recessão da história. Vive também a sua segunda década perdida, pois haverá redução da renda per capita entre 2011 e 2020.
Diante desse quadro surreal e trágico, a Dilma culpa o Temer e o Temer culpa a Dilma pelo desastre catastrófico da economia brasileira. O PT, que, normalmente, não gosta de fazer autocrítica, culpa todo mundo, menos os seus próprios erros. Mas a verdade é que os dois presidentes foram eleitos na mesma chapa e tiveram o mesmo número de votos. Sem o apoio do PMDB e das milhares de prefeituras pemedebistas, Dilma não chegaria à Presidência da República. E sem a força política do PT junto aos movimentos sociais, o PMDB, pelo voto direto, jamais chegaria ao Planalto. Além disto, as investigações do TSE mostram que houve financiamento ilícito na campanha de 2014 (assim como nas anteriores), eleições essas que já são registradas pela ciência política como o maior estelionato eleitoral da história política do país. É incrível como os dois partidos – junto aos aliados – se locupletaram para promover o maior desastre econômico da República. Eu, que votei nulo no segundo turno das eleições de 2014, tenho total liberdade para criticar as duas gestões, tanto a que foi impedida, como a que ocupou o espaço central.
Além de tudo, a recessão não pode ser considerada uma “medida amarga que vai curar o paciente”. O Brasil está não só vivendo 4 anos de grande queda na renda per capita (entre 2014 e 2017), mas também está vivendo um total desarranjo das contas públicas. Desde o início do século os sucessivos governos apresentaram superávit primário, medida que reduzia o déficit nominal (quando se contabiliza as despesas com juros) e evitava o descontrole da dívida pública. Mas para garantir a reeleição de 2014 a gestão Dilma-Temer gastou mais do que arrecadou em 2014 (as ações populistas visando a reeleição foram descaradas), exagerou na “contabilidade criativa”, nas “pedaladas fiscais” e deixou um triste legado para a gestão seguinte.
Assim, a bomba fiscal armada na primeira gestão Dilma-Temer explodiu na segunda gestão da dupla. O resultado foi um aprofundamento do déficit primário e o maior déficit nominal (de -10,3% do PIB) da história brasileira. O Brasil virou o patinho feio da economia internacional. Todos os problemas sociais se agravaram e a violência se banalizou no país. O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que o superávit primário só estará de volta na próxima década e que o déficit nominal vai diminuir, mas vai continuar elevado pelo menos até os 200 anos da Independência, em 2022.
Superávit(déficit) primário e déficit nominal no Brasil: 2010--2022
Os números do mercado formal de trabalho, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE, estão no vermelho à, praticamente, 28 meses (com exceção de março de 2015 e fevereiro de 2017). Os números são assustadores, pois, nesse período, foram eliminados 3,6 milhões de postos de trabalho formal, o que dá uma média de 130 mil empregos perdidos por mês ou 4,3 mil empregos formais eliminados por dia. A crise econômica brasileira fechou um grande número de postos de trabalho com carteira assinada entre dezembro de 2014 (logo após as eleições que elegeram Dilma-Temer) e 2017.
Para o mercado de trabalho como um todo, o desemprego aberto atingiu números alarmantes, pois gerou 14,2 milhões de pessoas procurando alguma vaga, no primeiro trimestre de 2017, o que significa uma taxa de 13,7%, segundo a PNAD Continua do IBGE. Numa medida ainda mais ampla, a “Taxa Composta da Subutilização da Força de Trabalho” está em torno de 23%, significando cerca de 25 milhões de pessoas desocupadas, desalentadas ou subutilizadas. Este desperdício da força de trabalho brasileira significa uma renda menor disponível para as famílias e também a criação de uma geração perdida, pois a juventude brasileira está sem alternativas para o futuro.
comportamento do emprego formal no Brasil: dez/2014 a mar/2017
Dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em colaboração com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o desemprego na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) atingiu o maior nível da história, com 2,066 milhões de pessoas procurando trabalho em março de 2017. Nunca o desemprego foi tão alto na RMSP. De 17,9 milhões de pessoas em idade ativa, apenas 9,1 milhões estavam ocupadas (uma taxa de 50,9%). Ou seja, só a metade das pessoas em idade produtiva estavam ocupadas. Mesmo assim era grande a quantidade de pessoas subempregadas e atuando na informalidade. Não há bônus demográfico que resista a estes números.
Tudo isto só confirma que a saúde da economia brasileira está capenga. A produção industrial brasileira terminou o ano passado 6,6% menor que 2015, o que conferiu o terceiro ano de resultado negativo para o setor. Em 2015, a queda foi de 8,3% e, em 2014, de 3%, segundo dados do IBGE. Assim, o processo de desindustrialização compromete o futuro da economia e a geração de emprego para absorver a força de trabalho mais escolarizada.
Pesquisa Datafolha, divulgada dia 30/04/2017, mostra que a impopularidade do governo Michel Temer cresceu e já é comparável à de Dilma Rousseff, há um ano, às vésperas da abertura do processo de impeachment que acabou por cassá-la em 2016. Neste quadro desalentador, um montante de 85% da população brasileira quer eleições diretas já! O país está atolado na estagnação e na insatisfação.
Assim, não é exagero dizer que “o Brasil apodreceu”. A operação Lava-Jato deixa claro que “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode cassar a chapa Dilma-Temer, em função das irregularidades no financiamento da última campanha eleitoral. Contudo, antes mesmo de qualquer resultado oficial, tanto Dilma, como Temer já foram rejeitados pela população e a opinião pública, em função do estelionato eleitoral de 2014. Está na hora de o Brasil virar essa triste página da história.
Referências:
ALVES, JED. O quinquênio virtuoso: 2004-2008, Aparte, IE/UFRJ, 07/06/2009
http://www.ie.ufrj.br/aparte/pdfs/quiquenio_virtuoso_07jun09.pdf
ALVES, JED. O paradoxo das baixas taxas de desemprego em 2013 e 2014, Ecodebate, 10/03/2017 https://www.ecodebate.com.br/2017/03/10/o-paradoxo-das-baixas-taxas-de-desemprego-em-2013-e-2014-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
 José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ATUAL CRISE NO SISTEMA POLÍTICO.

CRISE NO SISTEMA POLÍTICO.
Rodrigo Guimarães Nunes (PUC-Rio) pertence a uma jovem geração de intelectuais não imbricada com os resquícios de uma forma de enxergar e fazer política que, aos poucos, vai exigindo uma mudança de postura analítica e conceitual. Com uma cabeça bem formada, própria daqueles que extraem da filosofia ótimos exercícios para o pensar, não titubeia quando desafiado a utilizar essa capacidade para analisar a conjuntura brasileira. Foi com essa disposição que, no último dia 06 de maio, apresentou o tema A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira, pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades, promovido pelo CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPRCáritas Regional Paraná, e apoio do IHU, na cidade de Curitiba.
Com grande versatilidade, Nunes transitou de um tema a outro de sua abordagem, estabelecendo relações e limites, desde um quadro mais global da atual crise da representação política até a especificidade das questões internas que o país brasileiro atravessa. Quando precisou, foi contundente na análise dos dilemas da esquerda brasileira.
A crise da representação política é uma realidade na maioria dos países, provocada por uma fissura, que só tem aumentado, entre os desejos da sociedade e as alternativas viáveis oferecidas pelo mercado eleitoral. Em termos de posições políticas, vive-se um desmoronamento do centro, que atinge muito mais a esquerda que a direita. Os quadros da direita são mais voláteis e mais ou menos se equivalem. Já a esquerda, diante da instauração de uma crise, necessita de maior tempo para sua regeneração, pois possui uma base social organizada, que demanda um trabalho articulado das forças sociais. Contudo, a crise faz crescer os dois polos radicais, o da extrema-esquerda e, do outro lado, o da extrema-direita, cuja ascensão mundial já se fez notória.
Os cidadãos representados vivem o dilema entre insistir em “optar pelo mal menor” ou rejeitar totalmente o sistema, na expectativa de uma futura reforma do mesmo. Tal questão vai além da crise de um projeto político, pois esta se resolve com a alternância de poder, ao passo que a crise da representação demora muito mais tempo para se resolver, dado o corporativismo da classe política, que engessa as possibilidades.
Muito cauteloso em suas análises, Nunes evita as ciladas de uma leitura simplista da realidade dos representados. No caso brasileiro, é categórico ao rejeitar as comparações fáceis entre a sociedade brasileira e o Congresso Nacional, como se o último fosse simplesmente uma expressão simétrica da primeira. Inclusive, constata que muitas análises fazem bastante confusão com adjetivações à sociedade, que facilmente passa a ser considerada de direita, conservadora, liberal, etc. A realidade social é muito mais complexa e os agentes nela envolvidos se movem a partir de diferentes enfoques, nem sempre coincidentes com as rápidas análises de momento. Nesse sentido, é um erro analítico enxergar a movimentação política como o simples resultado de uma ascensão conservadora na sociedade brasileira, pois oferece uma visão distorcida da realidade, tratando como fato consumado o que ainda está em disputa e retira da esquerda sua parcela de responsabilidade sobre a atual conjuntura.
É preciso lembrar que a maioria da população é contra o programa antipopular do atual governo pós-impeachment, que só fez aumentar a descrença no sistema político. Há uma quantidade expressiva de pessoas que defendem a universalização da qualidade dos serviços públicos e que são liberais nos costumes. Além disso, a grande maioria das pessoas não tem uma noção ideológica definida, estando muito mais preocupadas com os possíveis resultados da gestão pública.

Participantes do debate "A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira". (Foto: Ana Paula Abranoski)
Para tentar elucidar o atual momento político, Nunes retomou as Manifestações de Junho de 2013, afirmando que as mesmas escancaram uma crise da representação política que já existia e que, nesse momento, persiste em grau agravado. Nelas atuaram cinco atores ou forças sociais:
1) Uma nova geração política à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT);
2) Uma pequena direita ideológica, mas muito bem organizada;
3) Pessoas que não eram de direita, mas que naquele momento comungavam com suas aspirações, por exemplo, com o antipetismo, que parece ser um significante vazio que congrega por aproximação à direita;
4) Os governistas que chegaram tarde demais, mas que interferiram por fora;
5) Por fim, um grande número de pessoas, novos atores políticos, que nunca tinham ido às ruas, mas que se manifestaram amplamente, de diferentes maneiras, empunhando suas bandeiras.
Nesse cenário ímpar, a nova direita foi a que mais soube se beneficiar com as manifestações, encontrando interlocutores dentro do sistema político. Para Nunes, enquanto os jovens da direita foram recebidos com tapetes vermelhos pelos representantes do sistema político, os jovens da esquerda apanharam da polícia, com uma rigorosa repressão. Hipoteticamente, o desfecho ideal daquele momento político do país deveria ter sido o encontro entre a nova geração militante à esquerda com aqueles inéditos atores políticos que, infelizmente, desde a sua irrupção em 2013, não se tem mais notícias.
Para Nunes, o momento atual oscila entre o cinismo e a revolta dos cidadãos. A questão é: persistirá a descrença generalizada, arrastando a crise ou haverá um novo episódio ‘selvagem’ como foram as Manifestações de Junho de 2013? Não há clareza a respeito de quem e como será possível mobilizar este mal-estar generalizado.
A curto prazo, parece que o lulismo se beneficiará da atual conjuntura, mas isso não significa, de forma alguma, uma solução para a crise, ao contrário, é justamente o sintoma da crise. Para Nunes, o fato de Lula (alguém que pode ser preso a qualquer momento) aparecer como o salvador da lavoura, e talvez do sistema político como um todo, é a prova sintomática da crise que se vivencia. O lulismo foi dependente de condições econômicas e políticas que já não existem mais. Tal saída é apenas paliativa, em um arranjo que busca uma acomodação do sistema a curto prazo, mas que é incapaz de estancar a atual hemorragia. É bem provável que, com o passar do tempo, o lulismo saia de cena e sem o mesmo, na opinião de Nunes, o próprio PT estará morto.
A crise da representação é uma crise do poder constituído, que não pode contar com a solução por ele próprio (por dentro do sistema). Em se tratando da esquerda como um todo, um de seus desafios é quebrar o monopólio da representação política do PT. Utilizando uma linguagem metafórica, Nunes considera que a esquerda possui uma relação monogâmica com o PT, mas, ao contrário, o PT não possui uma relação monogâmica com a esquerda. Em sua opinião, este momento abre a possibilidade para que a esquerda tenha uma relação de promiscuidade virtuosa com diferentes grupos e faça diferentes experimentações. Como exemplo de uma experimentação, citou o caso da eleição da vereadora mais votada em Belo Horizonte, na última eleição, Áurea Carolina, negra e feminista, pelo movimento Cidade que queremos, a partir de diversos grupos que negociaram a candidatura utilizando a legenda do PSOL.
Nunes listou uma série de possíveis iniciativas que, a seu ver, poderiam melhorar a relação entre representante e representado. Entre elas, acabar com o monopólio dos partidos políticos, possibilitando candidaturas independentes e a criação de plataformas cidadãs; criar instituições que garantam o controle dos representantes pelos representados, já que não se deve esperar chegar o dia em que todos os políticos serão honestos; instituir condições de revogabilidade de todos os mandatos; colocar limites para o número de mandatos, não permitindo que o indivíduo seja carreirista na política; ampliar o debate sobre a reforma política e reforçar as bases organizadas.
Se a experiência das Manifestações de Junho de 2013, em certa medida, trouxe elementos traumáticos, Nunes não hesita em defender a necessidade de superação, construindo bases, voltando à organização popular, consciente que somente o burburinho pelas redes sociais não constrói compromisso coletivo. As redes socais possuem muitas possibilidades, mas junto a elas é preciso criar condições para que se tenha bases organizadas e estratégias comuns. Nesse sentido, a ideia de ecologia organizacional, com a valorização da complementaridade, parece ser valiosa. Diferente da perspectiva que busca unificar tudo, onde todos fazem o mesmo, esta vê como benéfico para o processo de transformação social tudo o que ocorre de favorável nos diferentes grupos e movimentos, que se complementam. Como bem salientou Nunes, todo movimento é uma ecologia e uma ecologia deve ser preservada.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos