sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

AS AMEAÇAS DE TRUMP À CHINA E O DEFICIT COMERCIAL RECORDE

As ameaças de Trump à China e o déficit comercial recorde


“I ran for office because I was very critical of President Obama’s trillion-dollar deficits.
Now we have Republicans hand in hand with Democrats
offering us trillion-dollar deficits” – Rand Paul
deficit comecial dos EUA com a China: 1993-2017
[EcoDebate] O Census Bureau dos Estados Unidos atualizou os dados do comércio internacional do país, indicando que o déficit bilateral do país com a China bateu todos os recordes históricos e atingiu a fantástica cifra de US$ 375 bilhões em 2017.
Isto contrasta com o discurso protecionista de Donald Trump que prometia reverter as vantagens chinesas. Ainda em 2016, quando era candidato à presidência dos Estados Unidos, Trump dizia que a China era o maior inimigo comercial do país, pois adotava práticas desleais no comércio internacional, manipulava o câmbio para conseguir maior competitividade global e praticava preços artificialmente baixos (dumping) para conseguir ampliar seus crescentes superavits comerciais.
Ele prometeu impor tarifas aos produtos chineses para mostrar a Pequim que os EUA “não estão mais de brincadeira” quando se trata de garantir “relações comerciais justas”. Ele disse que instruiria o representante de Comércio dos EUA a abrir processos contra a China tanto em seu país quanto na Organização Mundial do Comércio (OMC). Ele chegou a prometer adotar uma tarifa de 45% para mercadorias chinesas. Em agosto de 2017, Trump solicitou investigação das políticas comerciais chinesas, incluindo um suposto roubo de US$ 600 milhões anuais em direitos de propriedade intelectual dos Estados Unidos, embora a China negue as acusações.
Na reunião do Fórum Econômico em Davos e durante seu recente Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump deixou claro que pretendia ser mais duro com a China, enquanto o ministro das Relações Exteriores chinês disse que o presidente americano tem uma “mentalidade antiquada da Guerra Fria”.
Em janeiro de 2018, finalmente Trump passou da retórica para a prática e anunciou a imposição de tarifas comerciais contra painéis solares e máquinas de lavar, importados da China, endurecendo as ações contra o gigante asiático.
Porém, toda a histeria de Trump não foi suficiente para reverter o déficit comercial dos EUA com a China. O gráfico acima, com dados do Census Bureau dos EUA, mostra que o saldo comercial dos EUA com a China cresceu enormemente nos últimos 25 anos, pois era de US$ 23 bilhões no começo do governo Clinton, em 1993, passou para US$ 84 bilhões no fim do governo Clinton, em 2001, atingiu impressionantes US$ 268 bilhões no fim do governo Bush, em 2008 e não parou de subir no governo Obama, chegando a US$ 367 bilhões em 2015, caindo um pouco para US$ 347 bilhões em 2016. Para se ter uma comparação, o déficit comercial dos EUA com a China é seis vezes maior do que o déficit com o México.
Mas enquanto o governo Trump tenta construir um muro na fronteira com o México e com a América Latina, além de fechar as fronteiras aos imigrantes e refugiados, o mundo continua tendo superavit com os EUA. O déficit comercial total dos EUA foi de US$ 77 bilhões em 1991, atingiu o máximo de US$ 837 bilhões em 2006, no governo Bush, caiu para menos de US$ 800 bilhões anuais nos 8 anos do governo Obama e voltou a subir no governo Trump, atingindo US$ 810 bilhões em 2017. A China sozinha teve um superavit recorde de US$ 375 bilhões no primeiro ano do governo Trump. Ou seja, Trump não passa de um “tigre de papel”.
deficit comercial total dos EUA: 1991-2017
Enquanto os EUA estão em retração na governança global e com déficits crescentes (comercial e fiscal), a China, sob a liderança de Xi Jinping avança na política “One Belt, One Road” (um cinturão, uma estrada), que é uma iniciativa estratégica de desenvolvimento e integração da Eurásia e o resto do mundo que pretende investir US$ 1 trilhão em dez anos e consiste em uma nova rota da seda para reconfigurar a globalização à moda chinesa. Somente com o superavit comercial obtido nas transações com os EUA nos últimos 3 anos, a China arrecadou mais de US$ 1 trilhão.
O fato é que a força da China no comércio internacional e a fraqueza dos EUA pode dar início não só a uma guerra comercial, mas também a uma guerra mais ampla, acontecimento que geralmente acompanha o processo de transição entre uma potência emergente e uma potência submergente.
O livro “Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?”, do professor e pesquisador Graham Allison, aponta para a possibilidade de uma Guerra entre EUA e China. O mote é o que ele chama de “Armadilha de Tucídides”, que se refere a um padrão mortal de estresse estrutural que ocorre quando um poder crescente desafia um poder governante hegemônico. Esse fenômeno é tão antigo quanto a própria história. Sobre a Guerra do Peloponeso que devastou a Grécia antiga, o historiador Tucídides explicou: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável.” Nos últimos 500 anos, essas condições ocorreram dezesseis vezes. A guerra estourou em doze deles e pode acontecer agora com o surgimento de um conflito de grandes proporções entre os EUA e China.
Além do déficit comercial, os EUA tem uma dívida pública que caminha para 100% do PIB e um grande déficit fiscal crescente e projetado para aumentar nos próximos anos, conforme mostra o gráfico do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO). O déficit ultrapassou US$ 1 trilhão nos anos de recessão (chegou a -9,8% do PIB em 2009) e caiu para US$ 438 bilhões em 2015 (-2,4% do PIB), mas aumentou para US$ 585 bilhões em 2016 e US$ 666 bilhões em 2017.
total deficits and surplus: EUA
Motivos de preocupação com uma nova guerra mundial não faltam. Os EUA, a despeito dos crescentes deficits fiscal e comercial, aumentaram o orçamento militar para níveis recordes, acima de US$ 600 bilhões ao ano. No discurso sobre o Estado da União, em 30 de janeiro, Trump defendeu um reforço na defesa do país, citando ameaças de países e rivais, como China, Rússia e Coreia do Norte, que “desafiam nossos interesses, nossa economia e nossos valores”. Ele afirmou: “Como parte da nossa defesa, precisamos modernizar e reconstruir nosso arsenal nuclear, com a esperança de nunca ter que usá-lo, mas tornando-o tão forte e poderoso que impeça qualquer ato de agressão”.
Por outro lado, a China, além de investir na dívida pública americana, avança seu poderio militar na Ásia e constrói ilhas artificiais no mar da China para manter o controle naval da região. Pequim continua construindo submarinos adicionais, mesmo já possuindo uma frota de 75 submarinos, mais do que os 70 dos EUA. Também possui 2 porta-aviões (contra 10 dos EUA). O orçamento militar da China caminha para US$ 200 bilhões, o segundo maior do mundo, mas um terço do orçamento militar americano. A China é uma potência militar emergente. O uso da Inteligência Artificial e dos robôs sapiens assassinos pode ser o fator desencadeador de uma guerra.
Depois de um ano de (des)governo Trump, está ficando claro que a euforia de Wall Street não passava de uma bolha, a moeda virtual Bitcoin atingiu seu valor mais baixo em meses e o Senado americano evitou o “Shutdown” elevando o teto do endividamento interno e colocando os EUA no caminho da insolvência de longo prazo.
Neste contexto, a “Armadilha de Tucídides” pode se manifestar novamente diante dos crescentes superavits comerciais e o fortalecimento global da China, vis-à-vis a fraqueza comercial dos EUA, embora forte em bases militares e em arsenal nuclear. Cresce a probabilidade de um confronto. Não sem surpresa, o “Relógio do fim do mundo” está cada vez mais perto da meia-noite.
Segundo Noam Chomsky: “Estamos à beira de uma catástrofe global”. Ele disse que a administração Trump, em particular, acelerou dois riscos fundamentais para a humanidade, por sua recusa em agir para combater a mudança climática e seu golpe de sabre contra uma Coreia do Norte com armas nucleares.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/02/2018

BRASIL: É O OITAVO PAÍS DO MUNDO EM CAPACIDADE INSTALADA DE PRODUÇÃO DE ENERGIA EÓLICA

Brasil é o oitavo país do mundo em capacidade instalada de produção de energia eólica


eólica
ABr
O Brasil subiu uma posição, passando o Canadá, e agora ocupa o oitavo lugar no ranking mundial que afere a capacidade instalada de produção de energia eólica, segundo o Global Wind Statistic 2017, documento anual com dados mundiais de energia eólica produzido pelo Global Wind Energy Council (GWEC).
Em 2017, o país conseguiu “adicionar 52,57 GW de potência eólica à produção mundial, totalizando 539,58 GW de capacidade instalada”, informou hoje (15) a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeolica), que reúne empresas do setor.
Em 2016, o Brasil ultrapassou a Itália no ranking e passou ocupar a 9ª posição. Atualmente, o país conta com 12,76 GW de capacidade de energia instalada, contra os 12,39 GW do Canadá. A China, ocupa a primeira posição, com 188,23 GW; seguida pelos Estados Unidos, com 89,07 GW, e a Alemanha, com 56,132 GW de capacidade instalada. A India, Espanha, o Reino Unido e a França completam o ranking dos sete primeiros.
Os números apontam para um crescimento da matriz de energia eólica no país. O segmento já é responsável por 8,3% da energia produzida no Brasil, percentual ainda distante dos 60,9% produzido pelas hidrelétricas, mas já próximo dos 9,3% da produção das usinas de biomassa, que ocupam o segundo posto no ranking nacional.
A energia produzida pelas usinas eólicas chegou a ser responsável por 64% da energia consumida na Região Nordeste, no dia 14 de setembro do ano passado. A Abeeolica estima que o Brasil, cuja capacidade instalada é 12 GW, tenha potencial eólico superior a 500 GW.
A Região Nordeste aparece na frente na capacidade de produção de energia a partir dos ventos. Com 135 parques, o Rio Grande do Norte é o estado que mais produziu energia usando ao força dos ventos. São 3.678,85 MW de capacidade instalada. Em seguida, com 93 parques e 2.410,04 MW de capacidade instalada, vem a Bahia. Em terceiro lugar vem o Ceará, que conta com 74 parques e tem 1.935,76 MW de capacidade instalada.
Em quarto lugar aparece o Rio Grande do Sul. O estado tem 80 parques e 1.831,87 MW de capacidade instalada. Em seguida vem o Piauí, com 52 parques e 1.443,10 MW instalados, e Pernambuco com 34 parques e 781,99 MW de capacidade instalada.
A expectativa é de que nos próximos seis anos devem ser adicionados mais 1,45 GW de capacidade eólica no país, decorrentes dos leilões de energia realizados em dezembro do ano passado. A Abeeolica estima que 18 milhões de residências sejam abastecidas com a energia eólica.
Segundo a associação, os dados no ranking de nova capacidade instalada no ano, o Brasil está em sexto lugar, tendo instalado 2,02 GW de nova capacidade em 2016. O Brasil caiu uma posição, já que o Reino Unido subiu do nono para o quarto lugar, instalando 4,27 GW de capacidade de energia eólica em 2017.
De acordo com a presidente da Abeeolica, Élbia Gannoum, o país pode cair de posição nos próximos anos, porque haverá menos projetos sendo concluídos entre 2019 e 2020. “Nesse ranking, o que conta é o resultado específico do ano, então há bastante variação. A tendência é que a gente ainda oscile mais, visto que em 2019 e 2020 nossas instalações previstas são menores porque ficamos sem leilão por quase dois anos no período 2016/2017, o que vai se refletir no resultado de 2019 e 2020”, disse Elbia.
Por Luciano Nascimento, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/02/2018

HINO : CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018

Aberta a campanha da fraternidade 2018


Na manhã desta quarta-feira, 14 de fevereiro, na sede provisória da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi aberta oficialmente a Campanha da Fraternidade (CF2018. Este ano, a Campanha trata da “Fraternidade e a superação da violência”. O presidente da entidade, cardeal Sergio da Rocha, e o secretário-geral, dom Leonardo Steiner, receberam autoridades para o evento: a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, o coordenador da Frente Parlamentar pela Prevenção da Violência e Redução de Homicídios, deputado Alessandro Molon, e o presidente da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), Carlos Alves Moura.
A informação é publicada por CNBB, 14-02-2018.

Mensagem do Papa

O secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Luís Fernando da Silva, leu para os presentes no evento a mensagem enviada pelo papa Francisco: “O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança é condição necessária para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência”.
No final da Mensagem, papa Francisco pediu: “Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim”.
CF 2018 (Foto: Divulgação)

Exposições

“Há alguns dados dos estudiosos que nos estarrecem”, disse Carlos MouraNegros e jovens são as maiores vítimas da violência no Brasil, informou. A população negracorresponde à maioria dos 10% dos indivíduos expostos ao homicídio no País. “É oportuno refletir sobre o Manual da Campanha da Fraternidade”, chamou a atenção: “A violência racial no Brasil é uma situação que faz supor uma forte correlação entre três formas de violência, direta, estrutural e cultural. Os casos de violência direta parecem ser resultado mais concreto e evidente de questões socioeconômicas históricas, além de deixarem entrever representações culturalmente produzidas e já naturalizadas a respeito da população negra, do índio, dos migrantes e, mais recentemente, também do imigrante”.
Moura lembrou que outra Campanha da Fraternidade tratou da superação da violência contra a comunidade negra, a Campanha de 1988, que tinha como lema: “Ouvi o clamor desse povo”. Nela, segundo Carlos Moura, a Igreja renovou o comprometimento da Igreja com o combate à violência.
A ministra Cármen Lúcia, agradeceu à CNBB “pelo convite ao Poder Judiciário para participar desse momento”. A presidente do STF disse que hoje, infelizmente, o outro tem sido visto com desconfiança e não como um irmão, um parceiro. “Esta campanha ajuda a ver o outro como aliado, como irmão”, reforçou. “Não basta que se faça parte da sociedade humana, mas é preciso atuar por ela para que se crie espaços de fraternidade”, acrescentou a ministra.
Deputado Alessandro Molon disse: “Nós nos acostumamos com a nossa tragédia. É como se no Brasil, a vida humana valesse muito pouco”. Ele realçou que a Campanha da Fraternidade não é de combate à violência, mas a superação dela. Chamou atenção para esse ano de discursos políticos é preciso lembrar o que diz o texto-base daCampanha que lembra que se trata de um problema complexo que não aceita soluções simplistas. “Esse carnaval nos deixou algumas lições. Quando as autoridades se omitem, por exemplo, a violência cresce”. O deputado ainda lembrou que todos têm responsabilidade, mas o Parlamento deve melhorar o Direito para proteger mais a vida que o patrimônio.
Cardeal Sergio da Rocha disse que a importância da Campanha da Fraternidade tem crescido a cada ano, repercutindo não somente dentro do âmbito da Igreja Católica, mas em toda a sociedade civil, além de outras igrejas cristãs. “Construir a Fraternidade para superar a violência” é o objetivo da Campanha da Fraternidade, lembrou. “A vida, a dignidade das pessoas, de grupos sociais mais vulneráveis têm sido atingidos frequentemente”. A realidade da violência, no entanto, “não deve levar a soluções equivocadas”, disse. Por conta disso, a Campanha da Fraternidade, disse o cardeal, quer ajudar a todos para fazer uma análise profunda diante da complexidade da realidade da violência.
“Embora que seja importante a ação de cada um de nós, mas é preciso de ações comunitárias”, disse o presidente da CNBB. A Igreja não pretende oferecer soluções técnicas para os problemas que aborda, mas o valor da fé e do amor que mostra que o semelhante não é um adversário, mas um irmão a ser amado, disse o Cardeal.
Fonte : Instituto Humanitas Unisinos

" FAKE NEWS " SUSTENTAM ESCOLHAS POLÍTICAS

fake news
Por Ewerton Martins Ribeiro, UFMG
O grande volume de notícias falsas que trafegam atualmente não deve ser creditado apenas à falta de informação ou à ignorância das pessoas. Em alguns casos, deter algum nível de informação pode ser fator determinante para cristalizar os próprios preconceitos. Essa análise foi feita pelo sociólogo Yurij Castelfranchi na palestra Ciências, crenças e boatos: como lidar com a controvérsia e sobreviver às fake news, proferida na quinta-feira, dia 8 de fevereiro, no último dia do Festival de Verão da UFMG.
O professor do Departamento de Sociologia da Fafich UFMG lembrou que esse fenômeno está associado ao chamado “efeito dunning-kruger”, no qual pessoas com menos conhecimento acreditam saber mais do que outras mais bem preparadas. “Essas são as pessoas mais perigosas. Elas se limitam a ler cinco livros sobre certo assunto e, por não terem alcançado nessa leitura a noção de tudo que ainda não sabem, acabam achando que já sabem tudo”, argumentou.
No extremo oposto, disse Castelfranchi, está a pessoa que sofre da “síndrome do impostor”, pois investe de verdade no conhecimento .“Quanto mais a competência da pessoa aumenta em determinado assunto, mais ela toma conhecimento de tudo aquilo que não sabe, de tudo aquilo que ainda não leu”, disse ele, aludindo à famosa máxima socrática.
Yurij Castelfranchi falou logo após o ativista Gael Benitez e a médica Maria da Consolação Vieira Moreira, que trataram, respectivamente em suas palestras, da experiência transmasculina na sociedade contemporânea e da realidade brasileira de transplante de órgãos. O sociólogo recorreu, inclusive, aos dois temas tratados anteriormente para enfatizar como é grave o processo de formação da opinião das pessoas.
“A falta de informação não é exclusiva daqueles que poderíamos chamar de público geral. Acabamos de ouvir um relato sobre médicos com falta de informação médica”, disse ele, repercutindo um caso de preconceito narrado por Benitez, além da observação feita pelo próprio ativista de que quase não há profissionais de medicina preparados para compreender e atender às demandas de saúde específicas das pessoas trans.
Castelfranchi acrescentou que os cientistas também contribuem para veicular desinformação e preconceito. “Na verdade, a modulação da opinião pública ocorre justamente a partir da manipulação de dados científicos”, disse. “No caso das controvérsias mais radicais, o problema nunca é apenas falta de informação, mas antes de tudo um problema de poder”, acrescentou.
Para o pesquisador, o substrato das chamadas “controvérsias sociotécnicas” são os valores, as escolhas e os preconceitos das pessoas. “Elas fingem se embasar em fundamentos científicos, em dados técnicos, para a sua tomada de posição. Quem nega a necessidade de assinar acordos internacionais para frear a mudança climática, como os EUA, tenta embasar essa alegação – que é política – com dados técnicos”, exemplifica. O mesmo ocorre quando se associa a vacinação infantil ao autismo, boato que vem sendo amplificado Brasil e em diversas partes do mundo, como a Itália, país de origem do pesquisador.
“Quase todas as guerras modernas começaram a partir de notícias falsas. No caso dos EUA, praticamente nenhuma guerra que eles realizaram deixou de se valer de uma notícia falsa como ponto de partida”, afirmou Castelfranchi, lembrando as supostas armas de destruição em massa do Iraque, nunca encontradas. “A essa notícia falsa devemos a morte de 400 mil crianças mortas”, asseverou.
Das falsas objetividades
Usando como gancho o próprio número de 400 mil crianças mortas no Iraque, o professor explicou como o uso de dados pretensamente objetivos carrega uma intenção política. “Nem todas morreram em razão dos bombardeios. O cálculo que embasa minha afirmação considera o fato de que, logo depois dos bombardeios, o Iraque foi submetido a um embargo que impediu a chegada até de remédios ao país. Missões humanitárias, como a Cruz Vermelha, não puderam levar antibióticos. Então calculamos 400 mil crianças mortas considerando as epidemias que, em razão da guerra não puderam ser curadas”, detalha. “Agora, por que fazemos a conta dessa forma? Porque é meu interesse, é minha escolha denunciar o absurdo daquela guerra. Para mim, é interessante dizer que as pessoas que morreram foram muitas e que morreram injustamente”, explicou o professor, usando o seu próprio discurso para demonstrar como ocorre o processo de manipulação da informação.
“Muitas vezes, quando as pessoas citam números em seus argumentos, elas estão fingindo ser objetivas, quando na verdade estão escondendo debaixo do tapete suas escolhas subjetivas. Nesse sentido, vocês não podem pegar os números que ofereço como simples fatos. São fatos calculados, definidos, recortados a partir de uma escolha. Citar números, dados pretensamente objetivos, é fazer uma escolha política”, alertou.
Para o sociólogo, que também é mestre em comunicação – área em que atuou por mais de dez anos –, o problema em torno da informação na contemporaneidade se torna mais grave em razão dos ambientes em que as discussões ocorrem. “Elas se dão em ambientes de mediatização extremamente forte e precisam obedecer e se submeter, antes de tudo, às regras dessas mídias”, afirmou.
Das falsas controvérsias
Para Yurij Castelfranchi, não é exatamente a falta de informação que faz que ainda hoje algumas pessoas neguem, por exemplo, que tenha havido o genocídio de Auschwitz (rede de campos de concentração do nazismo montada na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial), ou que insistam em ser racistas, homofóbicas, transfóbicas: “A [falta de] informação [correta] é parte da questão, mas outra parte fundamental é mesmo a forma como as pessoas decidem construir sua opinião”, disse. “Mudança climática, ideologia de gênero, escola sem partido; se Lula deveria ou não ser preso; se Bolsonaro deveria ou não ser cassado: todas essas controvérsias são caracterizadas por um embate político de valores: as pessoas brigam porque acreditam em ideias de justiça e embasam – e, em razão disso, acabam sendo despolitizadas – suas opiniões em aspectos técnicos e científicos”.
Apesar da energia gasta com as controvérsias contemporâneas, Castelfranchi sustenta que a maioria delas são falsas. “O truque do trabalho de desinformação é gerar falsas polêmicas”, afirmou. Nesse sentido, o professor explicou que o trabalho feito com as fake news atua menos no sentido de contra-argumentar uma ideia inequívoca, como o Holocausto, e mais para desviar o foco e criar múltiplas e contraditórias hipóteses, que poluem a esfera do debate e acabam por neutralizar a capacidade dos fatos verdadeiros de alcançar as pessoas.
O sociólogo listou ainda uma série de outros fatores que colaboram para que as pessoas sigam consumindo e reproduzindo fake news – entre eles, um relacionado à ideia de “dissonância cognitiva”, segundo a qual somos propensos a acreditar no que agrada às nossas ideias pré-estabelecidas e a não acreditar naquilo que as confronta, independentemente do que os fatos digam a respeito.
Em razão disso, o professor acredita que o trabalho das agências de checagem de informação, que têm se multiplicado mundo afora, é insuficiente para impedir o agravamento do fenômeno das fake news e da manipulação da informação e do saber técnico e científico. “Desmontar mitos não funciona. O que está na base desse processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância. Acreditamos no que escolhemos acreditar. Quando se constrói mentiras que agradam a um grupo, mesmo que sejam desmascaradas, elas seguem funcionando naquele grupo e usadas e reproduzidas por ele. Não raro, aquele que as desmascarou recebe de volta simplesmente o ódio”, lamentou.
Da UFMG, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2018


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

NOVOS DADOS DE SATÉLITE CONFIRMAM O AUMENTO ACELERADO DO NÍVEL DO MAR

Novos dados de satélite confirmam o aumento acelerado do nível do mar


Por Tina Meketa, University of South Florida*
Topografia da superfície do oceano a partir do espaço. Representação do artista do satélite Jason-3 | Imagem cortesia da NASA
Topografia da superfície do oceano a partir do espaço. Representação do artista do satélite Jason-3 | Imagem cortesia da NASA
Vinte e cinco anos de dados de satélites provam que os modelos climáticos estão corretos na previsão de que o nível do mar aumentará a uma taxa crescente.
Em um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, os pesquisadores descobriram que, desde 1993, as águas oceânicas subiram a costa em quase 1 milímetro por década. Isso está em cima do aumento anual constante de 3 milímetros. Essa aceleração significa que ganhamos um milímetro adicional por ano para cada uma das próximas décadas, potencialmente dobrando o que aconteceria ao nível do mar até 2100 se a taxa de aumento fosse constante.
“A aceleração prevista pelos modelos já foi detectada diretamente das observações. Eu acho que isso é um trocador de jogo até a discussão sobre mudanças climáticas “, disse o co-autor Gary Mitchum, doutorado , decano e professor da University of South Florida College of Marine Science. “Por exemplo, a área de Tampa Bay foi identificada como uma das 10 áreas mais vulneráveis do mundo ao aumento do nível do mar e a crescente taxa de aumento é uma grande preocupação”.
O Dr. Mitchum é parte de uma equipe liderada pelo professor de Boulder da Universidade do Colorado Steve Nerem, PhD, que usou análises estatísticas para aprimorar estudos anteriores com base em dados de marés, o que também sugeriu aceleração ao longo do século passado. No entanto, os satélites dão uma visão melhor do aumento do nível do mar, porque as amostras são coletadas ao longo do oceano aberto, ao invés de apenas ao longo do litoral.
Como continua, a próxima geração experimentará uma paisagem muito diferente do que hoje.
Referência:
R. S. Nerem, B. D. Beckley, J. T. Fasullo, B. D. Hamlington, D. Masters and G. T. Mitchum. Climate-change–driven accelerated sea-level rise detected in the altimeter era. PNAS, 2018 DOI: 10.1073/pnas.1717312115
http://www.pnas.org/content/early/2018/02/06/1717312115
* Tradução e edição de Henrique Cortez
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2018

BEIJA - FLOR DE NILÓPOLIS

O Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí

Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí
Imagem: Twitter – @luizzffilipe
[EcoDebate] A Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis trouxe para a Sapucaí, no carnaval 2018, uma justa homenagem ao livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”, de Mary Shelley, que foi publicado originalmente no dia 01 de janeiro de 1818 e que, portanto, acabou de completar 200 anos.
O samba-enredo, comandado por Neguinho da Beija-flor e acompanhado pelo público na Avenida, teve como título “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”.
A ideia do enredo foi do coreografo Marcelo Misailidis, que aproveitou o mote do livro de Mary Shelley de apresentar um monstro criado pelo próprio ser humano e não como uma aberração da natureza. Um monstro que ameaça a ordem social e institucional não por sua maldade intrínseca, mas por ser o resultado de uma estrutura injusta, preconceituosa e excludente, que renega e não cuida das consequências não antecipadas e indesejáveis do modelo que prega ordem e progresso.
A Beija-flor apresentou um Brasil monstruoso e deformado pela corrupção, pela desigualdade, pela violência e pelas intolerâncias de gênero, racial, religiosa, esportiva, etc. As alegorias lembraram muito o icônico desfile “Ratos e Urubus”, de Joãozinho Trinta, de 1989.
A crítica social foi forte. Teve a ala dos roedores dos cofres públicos, a ala dos lobos em pele de cordeiro, a alegoria das transações ocorridas no prédio da Petrobras entre os políticos brasileiros e os empreiteiros. O carro encenando a violência cotidiana do Rio de Janeiro, mostrou crianças morrendo na escola, mães enterrando seus filhos, policiais baleados, caixões, ocorrências de assaltos e vidas devastadas. Vítimas da guerra ao tráfico de drogas e um destaque representou o encarceramento em massa nas prisões do Brasil. Aliás, os tiroteios, os assaltos e os arrastões proliferaram durante a folia de carnaval na Cidade Maravilhosa (cada vez mais monstruosa).
A ala “Imposto dos Infernos” trouxe a crítica às altas taxas cobradas desde o ciclo do ouro (Derrama) e relembrou o Brasil como o país que tem maior carga tributária. A “Corte da Mamata – Quadrilha” no poder trouxe os passistas como ratos e abutres para mostrar os interesses dos líderes políticos, satirizada com colarinhos brancos e caixas de pizza. Na festa pagã, também apareceu a “guerra santa brasileira”, representando a religião na política e o fundamentalismo religioso.
As baianas se vestiram de “santas do pau oco”, prática no Brasil colônia de esconder ouro dentro de imagens de santos. A ala “Ali Babá e os bobos”, mostrou o lucro excessivo dos vendedores de especiarias na era colonial. Mais atual, a ala “Vampiros sanguessugas exercem seus podres poderes”, representa os políticos como “morcegos-vampiros” que sugam o sangue do povo. Não faltou lobo em pele de cordeiro e suas malas de dinheiro.
A Beija-Flor também levou para a avenida a “farra dos guardanapos”, como ficou conhecido o jantar luxuoso que o ex-governador Sergio Cabral promoveu em Paris, no qual políticos e empresários do Rio, bêbados, foram fotografados com guardanapos na cabeça e hoje, a maioria está presa ou sob investigação.
Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí
Foto: G.R.E.S Beija-Flor de Nilópolis – Facebook
Evitando qualquer ufanismo, contornou a narrativa apologética do Brasil como uma “Terra adorada” e uma amada “Mãe gentil”, para mostrar “Os filhos abandonados da pátria que os pariu”.
Sem dúvida, há uma coincidência entre o fim da onda revolucionária que varreu a Europa no final do século XVIII e a crise lamentável e permanente da Nova República brasileira. O monstro criado por Mary Shelley é também uma metáfora sobre os filhos abandonados da Revolução Francesa e da corrupção dos ideais de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Mary Shelley (1797-1851) era filha de dois grandes expoentes do iluminismo, William Godwin – filósofo e político revolucionário que defendia as ideias libertárias da Revolução Francesa, escrevendo, dentre outros, o famoso livro “Inquérito acerca da justiça política” (1793) – e Mary Wollstonecraft – pioneira do feminismo moderno que escreveu o seminal livro “Reivindicação dos Direitos da Mulher” (1792).
Com seu marido – o famoso poeta romântico Percy Shelley (1792-1822) – o casal lutou contra a monarquia, a tirania, o militarismo, o preconceito religioso, a escravidão, a ignorância, as injustiças e as desigualdades de todos os tipos. Eles eram a favor da democracia, da liberdade de expressão, do anarquismo, do ateísmo, do vegetarianismo, do amor livre e de uma sociedade melhor e mais justa.
Percy Shelley, com sua ideologia social-libertária, defendeu o direito das pessoas se levantarem contra os governos, mas por meio da não-violência, o que influenciou a filosofia da “Desobediência civil” de Henry Thoreau e a “Satyagraha” de Mahatma Gandhi.
O escritor esloveno Slavoj Zizek, no livro “Em defesa das causas perdidas” (2011) diz: “É fácil mostrar que o verdadeiro foco de Frankenstein é a ‘monstruosidade’ da Revolução Francesa, sua degeneração em terror e ditadura. Mary e Percy Shelley eram estudiosos ardentes da literatura e das polêmicas relativas à Revolução Francesa. Victor cria seu monstro em Ingolstadt, a mesma cidade que Barruel – historiador conservador da Revolução cujo livro Mary leu repetidas vezes – cita como fonte da Revolução Francesa (foi em Ingolstadt que a sociedade secreta dos Illuminati planejou a revolução)”.
O livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” é realmente uma grande referência para o século XXI. Se no passado foi uma metáfora sobre as promessas da ciência e da tecnologia dos primórdios do capitalismo que, ao destruir a ordem do Antigo Regime, gerou inúmeras injustiças e grandes desigualdades sociais, na contemporaneidade, o livro serve de alerta contra os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que podem criar desastres nucleares como em Chernobyl e Fukushima, ou novos monstros, como a Inteligência Artificial desregrada, os transumanos imortais e os robôs assassinos. Viva Mary Shelley!
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2018